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Legião Urbana Uma Outra Estação
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Roqueiro Brasileiro - Renato Russo Em nova fase de vida, Renato
Russo, aos 34 anos, se recupera de um profundo mergulho no
álcool e nas drogas e de uma arrebatadora paixão, enquanto
confecciona o próximo disco da Legião Urbana e planeja a melhor
maneira de educar seu filho, Giuliano de cinco anos. Marie Claire - Como foi que a música entrou na
sua vida ? MC - Quem são seus pais ? RR - Meu pai é neto de dois imigrantes
italianos, primo de segundo grau de minha mãe e primo-irmão de
minha avó. Ele é economista, está aposentado e tem 70 anos.
Minha mãe era professora, mas, quando se casou, parou de
trabalhar. Meu pai veio para o Rio para trabalhar no Banco do
Brasil e inaugurou a geração classe média urbana da família,
que antes, plantava mate no Paraná. E tome Banco do Brasil,
muito Banco do Brasil... MC - Então o roqueiro de "Que País é
Este ?" é um legítimo filho de funcionário público ? RR - é, com certeza. Se bem que funcionário
do Banco do Brasil não se considera funcionário público, você
sabe ... MC - é elite. RR - é. Isso influenciou muito minha vida.
Hoje, não sei ... Mas eu sempre tive muita estabilidade na vida
por causa do banco. Mesmo na época da revolução. Meus amigos
contam outro tipo de história. Para a gente, era assim: o Brasil
está indo para a frente e nós estamos indo junto, entende ? Eu
nunca soube de nada das coisas que aconteciam, Achava o Médici o
maior presidente do mundo. MC - Você nasceu no Rio mesmo ? RR - Eu era de classe média-média suburbana,
da Ilha do Governador. Vivi lá até 1967. Então mudamos para
Nova York, onde vivi dos sete aos dez anos. Ficamos mais três
anos no Rio e fomos para Brasília, quando eu tinha 13 anos.
Nunca me faltou nada. Nada mesmo. Meus pais são maravilhosos,
estão juntos até hoje. Tive muito problema com isso porque me
senti culpado, durante a adolescência. Por não corresponder às
expectativas deles, de uma vida bem comportada. Eles são
supersimpáticos, inteligentes, têm um casamento de sonhos,
maravilhoso e tal. Para mim, tudo isso era um carma, entendeu ?
Eu era e ainda sou um pouco terrível. MC -Como foi virar gente em Brasília ? RR - Bem, eu não sei se virei gente ainda ...
Vivi em Brasília dos 13 aos 23 anos, e ali, depois de algum
tempo, meu mundo da infância que era muito seguro, começou a
mudar. Mas se entrar aqui o Júnior (uma auto referência), com
oito anos de idade, é a mesma pessoa. Talvez eu estranhe se
entrar o Júnior com com 16, 18 anos de idade. Mas os valores
são os mesmos. MC - Por que você se estranharia com 16, 17
anos ? RR - Porque eu era muito confuso. Foi uma fase
que durou muito tempo até o comecinho da Legião Urbana. Eu me
perdi. Eu tinha uma vida de sonho. Aos 17 anos acabou, sabe ? Fui
para o mundo. Surgiram aquelas confusões sexuais da
adolescência e dúvidas. MC - Qual foi o seu primeiro trabalho ? RR - Foi na Cultura Inglesa, em Brasília, como
monitor. Depois, virei professor. Tinha 15 anos, idade e, que vi
meu primeiro show de rock, da Rita Lee, no ginásio do Colégio
Marista. Fiquei emocionado. Mas não pude ir ao segundo. MC - Por quê ? RR - Porque um resultado médico mudou minha
vida. Estava com epifisiólise, doença que destrói a
extremidade dos ossos. Minha perna estava pendurada só pela
pele, entre o fêmur e a bacia. Meu mundo acabou. Fui operado e
fui vítima de erros médicos. O cara colocou o pino dentro do
nervo. Contrações involuntárias me faziam gritar de dor. Fiz
outras operações. Perdi dois anos de vida com medo de sentir
dor, isolado, fora de tudo. MC - Como você voltou ao mundo depois de dois
anos entre a cama e a cadeira de rodas ? RR - Quando voltei para o colégio, aos 17
anos, era um menino diferente. Distante. MC - Distante por quê ? RR - Porque fiquei de fora. Observava tudo com
olhar de estrangeiro. MC - Quem são o Eduardo e Mônica da música ? RR - Acabei me aproximando, graças a música,
de um tal Fernando, que tinha chegado de Paris com uma grande
coleção de discos - Traffic, Eric Clapton, tudo. Morava sozinho
e namorava uma menina com filhos, a Léo. Isso era 77,78. é ela
a Mônica da música e eu sou o Eduardo, só que menos bobo. MC - Menos bobo ? RR - é, eu lia, não era aquela coisa
clube-e-televisão da letra. Teve uma época que eu trabalhava
num jornal, na Cultura Inglesa e fazia faculdade. Sei que quando
o Sid Vicious, do Sex Pistols, morreu, tomei o primeiro porre da
minha vida. E a partir daí comecei a usar muitas drogas. MC - Só a partir daí ? RR - é, quer dizer...eu já usava, mas era de
fim de semana. Até essa época era só bagulhinho e álcool. A
cannabis (maconha), você sabe, afeta a memória, mas acho que
já tínhamos formado o Aborto Elétrico. MC - Ah! Sua primeira banda punk. RR - é. Ensaio todo o fim de semana. Nessa
fase explodiu tudo o que eu não vivi nos dois anos em que eu
fiquei de cama. Apareceu uma nova geração no rock que dizia:
"Você não precisa estudar música para fazer rock'n'roll.
Você pode pegar uma guitarra e fazer". Eram os punks.
Nossos padrinhos foram os Paralamas do Sucesso. MC - E o que mais o fascinava nisso tudo ? RR - Ter encontrado um jeito de ter poder. é
divertido. MC - Como foi enfrentar o mundo machista do
rock para você que é RR - O mundo do rock não é bem assim. Ele é
misógino. O que vale nesse mundo não é saber se você é gay
ou não. é saber quem é mais louco, quem vende mais disco, quem
ganha mais dinheiro. Era aquela coisa de querer se mostrar, do
exibicionismo, da vaidade mesmo. De se transformar em ídolo. MC - Para o Legião, política e injustiça
social sempre vêm antes do conflito de gerações... RR - O Legião chamou muita atenção porque
surgiu no período da abertura, da redemocratização. Mas,
basicamente, o que escrevemos são canções de amor. Uma coisa
talvez até adolescente demais. Até pelo meu histórico
familiar, eu preservo a família. Falo mal é das instituições.
Eu já fiz estádio vir abaixo e tomei várias atitudes rebeldes,
mas dou muito valor a família. Porque ela que me segura. MC - A geração mais nova é diferente da sua
? RR - é. São menos agressivos. é uma
geração mais passiva. Já estão acostumados à violência.
Têm Netuno em Sagitário e não Escorpião, como minha
geração, que lida com o instinto de morte, e é mais louca,
exibicionista, cheia de altos e baixos. Essa geração atual é
mais do "vamos com calma para ver o que vai acontecer". MC - Você é de esquerda ? RR - Sou anarquista e individualista. Tenho uma
visão poética, mas não me considero poeta. Procuro o belo. MC - A geração atual é mais alienada que a
sua ? RR - Não. O que existe hoje é consumismo
desenfreado. é a TV dizendo qual o seu sonho de consumo. Isso
existe há décadas, mas não como hoje. Tanto que agora existe
uma discussão ética sobre valores éticos no país e não se
chega a conclusão nenhuma. As pessoas perderam o sotaque e
Maceió é igual a Porto Alegre. Uma pasteurização que o
fascismo usa muito bem. MC - Seu disco foi feito para a campanha contra
a fome do Betinho. Quanto você doou do seus direitos ? RR - Cinquenta por cento. MC - Com esse disco, você assume a bandeira do
homossexualismo e deflagra uma carreira solo. Vai seguir por aí? RR - O Legião Urbana continua. São coisas
distintas e por isso as músicas do disco solo são
"covers" (regravações de sucessos) em inglês. MC - Primeiro emprego aos 15, primeira banda
aos 17. E o primeiro namoro ? RR - Nunca tive, na verdade. A não ser a
Luíza, quando eu tinha 11 para 12 anos, na Ilha do Governador.
Mas não era uma coisa de namoro exatamente, era de troca. Porque
eu era gay. Eu sou gay, entendeu ? MC - Você já se reconhecia como gay ? RR - Eu sabia que era desde os quatro anos de
idade. Quer dizer, eu não sabia que era gay-gay! Eu tinha uma
afeição muito grande pelas meninas, mas não pensava nelas em
termos sexuais, de posse. Não precisava de proximidade física,
beijo ou sacanagem. A gente pegava o disco do irmão mais velho
da Luíza e ficava ouvindo Cat Stevens e James Taylor, sabe ? MC - Você nunca sentiu atração sexual por
mulher ? RR - Não. Absolutamente. Aos quatro anos, eu
não brincava de médico com meninas. Para mim, isso não tinha
graça nenhuma. Eu sabia que sexo era proibido. Sou de família
católica, italiana. Sabia que tinha as brincadeiras com as
meninas, mas eu queria ver como eram os "peruzinhos"
dos meninos. MC - A repressão influenciou sua opção
sexual ? RR - Não. O ato sexual não tem nada a ver com
a sua opção. Tanto é que eu tive um filho e namorei mulheres.
Eu não quero citar nomes, mas tive um caso tórrido com uma
atriz de cinema e TV. Tem homem que tem uma dificuldade brutal.
Comigo não, eu me excito. MC - Seus maiores amores foram homens, ou
mulheres ? RR - Ambos. Uma coisa eu posso dizer: todas as
mulheres que já se apaixonaram por mim são hoje minhas melhores
amigas. Eu me apaixonava, mas não carnalmente. Gostava, achava
divertido e tudo, mas pensava: "Não é isso que eu quero,
está faltando alguma coisa". Por muito tempo busquei
relacionamentos com mulheres para provar que eu era homem. MC - Até quando durou isso ? RR - Até hoje. Porque eu amo as mulheres.
Espero que ela não fique chateada, é uma mulher casada...mas a
Carla Camurati, eu encontrei na casa de um amigo. Ela é linda.
Meu tipo. Fiquei babando. Pensei: "Gente do céu, é a
mulher da minha vida". Mas eu sei que não é por aí.
Porque a gente pode estar junto e compartilhar tudo, mas de
repente, passa um bofe bonito...Sabe, eu tenho tara por bunda
cabeluda, por pé, por falo, pelo torso masculino, pela coisa da
barba. O que me atrai na mulher é a essência da mulher. Não o
corpo. No homem, a essência se traduz no corpo. Também acho que
nunca vou satisfazer a mulher completamente. Sou o bofe por
excelência. Sou macho, minha filha... Me sinto muito mais a
vontade em uma relação com outro homem. Homem não pode fingir.
Ou está de pau duro ou não está. Eu entendo o que o outro cara
pensa, conheço o cheiro, conheço o toque. Com a mulher, eu me
sinto desonesto. E elas se entregam tanto que eu me sinto tão
pequeno...E não é a lôraburra que se apaixona por mim. Era a
(escritora) Marina Colassanti, mulheres casadas... MC - Até hoje isso acontece ? RR - Hoje eu já sei que sexo não é tudo e
que a amizade é tão importante quanto. Como dizia a Denise
(Bandeira), "a gente vira amante cósmico". Sabe, eu
não sou monogâmico ... MC - Qual foi o seu primeiro caso homossexual ? RR - Aos nove anos. Foi um escândalo na
família. Foi com o meu primo. O engraçado é que eu sempre
gostei de homem bonito, e ele era lindo. Eu era o inteligente,
com idéias maravilhosas, e ele era o atleta, o Adônis, o Davi
de Michelangelo, que até hoje tem problemas de dependência
química mas ainda assim não conseguiu ficar feio. Até os 13
anos, tivemos uma amizade absurda, depois ele seguiu o caminho
dele e eu continuei perdidamente apaixonado. MC - Como o Stonewall Celebration foi concebido
? RR - Nele tem músicas que lembram o que
passei. Como "The Ballad Of The Sad Young Man", que
toca no problema da dependência química, de se pertencer a uma
minoria. Mas o que existe no disco não é o problema gay. é
todo o espírito humano. Eu estou cantando para um outro cara,
mas são canções de amor. MC - Você se inspirou no seu último grande
amor ? RR - é. O Robert Scott Hickmon. Foi ele que
pintou essas paredes (do apartamento onde mora). Vivemos juntos
aqui. Ele era gay de carteirinha. Morava na Market Street, em San
Francisco. Lá, o padeiro, o açogueiro, o dentista, todos são
gays. Eu o conheci em 1989, lixeiro, com uma mochila nas costas,
numa atitude de coitadinho. Ele veio comigo para o Brasil em
1990, voltou para lá e retornou para vivemos juntos. Mas aí,
você sabe, todo gay é macho. Ele achou que podia passar por
heterossexual. MC - No Rio, ele resolver passar por hetero de
repente ? RR - Bem, ele era white trash: branco, pobre,
filho de mãe alcoólatra, pai que espancava, tudo de pior...E,
de repente, achamos que um podia ajudar o outro. Nos apaixonamos.
O plano era ele me dar forças para que eu parasse de beber. Eu e
daria força para ele para de tomar speed (anfetamina). MC - E voces pararam ? RR - Eu só parei na segunda vez que ele veio
porque peguei hepatite. Quase morri. Ele era o atleta, o belo, o
prático, consertava coisas. Aquela mesma coisa do Zé Eduardo (o
primo). E eu era o cara dos livros. O Scott era um disléxico
problemático, lindo, louro..."Que maravilha", eu
pensei "que coisa romântica". Mas ambos tínhamos
coisas muito mal resolvidas. Fizemos terapia de casal. Não
funcionou porque ele tinha uma culpa enorme quando chegou ao
Brasil. MC - Culpa por ser gay ? RR - Ele se achava um cidado de segunda classe
por ser semi-analfabeto, ter um histórico de criança de
reformatório, de orfanato que, bonita sempre encontrava homens
maravilhosos para tomar conta. No gueto, o problema dele não
aparecia. Aqui, foi bem aceito pelos meus amigos, que me
respeitam. Nas, de repente, aflorou o lado macho e ele passou a
sofrer por não ter emprego, não conseguir trabalho. Foi em
1990, o Collor tinha roubado o dinheiro de todo o mundo. E ele
tinha que me pedir dinheiro. Até tentou provar a masculinidade
transando mulher. Como a gente estava nessa de liberar o corpo,
achei que tudo bem. A gente não estava casado e queríamos fugir
desse modelo hetero de ficar preso. Eu tenho um filho, imagine!
Cada um com sua vida, mas degringolou. MC - Transar mulher é álibe para o quê ? RR - Ele me disse que, mesmo se atração,
transar com mulher lhe dava sensação de força. Era mais fácil
para ele ser hetero e batalhar a vida do que tentar ser gay e
digno. Voltou para os Estados Unidos e nunca mais o vi. MC - Você chegou a fazer o teste de Aids ? RR - Não falo sobre isso. Dá medo, é uma
coisa terrível. Faço parte de uma geração que foi pega no
meio do caminho. Tive que erotizar o uso da camisinha. Senão, na
hora de procurar por ela, você já broxou. Para não usá-la, o
pessoal começou a fazer mais sexo sem penetração, achando que
não pega Aids. Virou tudo filme de gay, sabe ? Aquela coisa de
gozar fora. Mas eu não preciso dessa coisa de teste e quando eu
fiz foi... MC - Um alívio ? RR - Foi horrível esperar o resultado. Faço
check-up todo ano e descobri que estava com hepatite B. Os
médicos me pediram para fazer teste de Aids. Fiz três exames
até ter certeza do resultado, que deu positivo no primeiro exame
e foi um horror... Você tem que falar com seus amigos e todos
tiveram que fazer teste de Aids. Aí fiz outro (Western Blot,
exame mais caro e mais preciso). Repeti mais uma vez durante o
tratamento da hepatite. E esses dois deram resultado negativo. O
médico me disse que até segunda ordem eu sou soronegativo. Mas
ajo como se fosse soropositivo. Sexo seguro total. Já passei por
tanta coisa... E sempre maltratei muito meu organismo. Você
sabe, não é legal falar isso, mas quem é realmente saudável
tem menos possibilidade de contrair Aids. Não faço as mais
loucuras que fazia antigamente. E tem certas coisas que caem na
área da dúvida, como sexo oral, por exemplo... MC - Depois que o Scott se foi, você começou
a usar heroína ? RR - Ele ainda estava aqui. De tudo que usei, o
pior foi o álcool e tranquilizantes. Heroína foi horroroso, mas
só um mês e meio. No final de julho de 1990 ele viajou e eu
continuei. Uma coisa meio junkie mesmo...Depois decidimos que ele
voltaria e a gente iria se cuidar. Bem, não posso dizer que foi
ruim. Na verdade, foi péssimo. MC - Como assim ? RR - É, porque, a gente usava heroína para
ficar namorando. Ele conheceu um "rajneesh" (seguidor
de Osho, como é atualmente conhecido o guru indiano) na praia,
que tinha a droga. No Rio, heroína não existe. Eu nunca tinha
experimentado. Foi aquela coisa... Um glamour muito grande. O
Scott já tinha experimentado tudo. Pegamos leve, não usávamos
agulha nem nada. Era só fazer uma cabecinha de palito de
fósforo assim... E o mundo fica maravilhoso por oito horas. Em
termos de dependência física, é a pior droga. Tudo que é
droga é ruim. MC - Embora, na hora, você ache bom ? RR - Não é achar bom. Sempre tinha um motivo:
solidão, veia autodestrutiva, varar a noite trabalhando... MC - Como você parou com a heroína ? RR - é horrível parar. Dá uma agonia... Se
você está sentado, quer ficar de pé; se está em pé, quer
ficar sentado. Dá vontade de sair da pele, um enorme vazio. Na
primeira vez, fui até onde dava e me enchi de Valium
(tranquilizante) e remédio para dormir. Acordei maravilhoso e,
de novo, me droguei. Mas, da segunda vez, foi brabo. Chamei umas
amigas para o Marina Hotel, onde morei muito tempo. Não
adiantava rezar, tomar banho de sal grosso, nada. Era deitar e
esperar. MC - Você chegou a pensar em suicídio ? RR - Não, mas já pensei nisso. Não de levar
às últimas consequências, mas... MC - Dizem que você declarou em um show que
chegou a tentar cortar os pulsos por causa de uma menina. RR - Não, isso não tem nada a ver. MC - Então você falou de bobeira ? Foi uma
invenção ? RR - Show é show, né ? Isso deve ter sido uma
introdução a "Ainda é Cedo" (do primeiro LP, Legião
Urbana). é recurso dramático. Mas não aconteceu, não. Eu tive
um pequeno acidente, mas não foi por querer me matar nem nada.
Eu só queria ver como é que era. Uma coisa de louco. Só que me
deu o maior susto. MC - Foi em Brasília ? RR - Foi. Eu tinha 20 e poucos anos. Coisa de
bêbado. Eu estava lá entediado, cismado que queria ser artista
plástico. Comprei uns guaches e ficava meus desenhos e
aquarelas. Comecei, de repente, a diluir tinta em urina. Me
cortava e desenhava com sangue, todo fora de controle, coisa de
irresponsável... MC - E como você se safou disso ? RR - Fiz uma operação da qual ainda tenho
marcas. MC - E não era uma coisa de querer liquidar
com a vida ? RR - Não, imagina... Claro que não. MC - Desde quando você parou com as drogas ? RR - Desde 3 de abril de 1993, logo após meu
aniversário. A reprogramação de vida que faço desde então é
definitiva. Para valer. Você percebe que a dependência química
é uma doença crônica, primária, progressiva e fatal. Eu não
sou sem-vergonha, louco, nem depressivo, nem melancólico. Sou
dependente químico. Interessante é que por trás de todo
dependente está sempre um perfil psicológico sensível e
inteligente. São todos compulsivos. MC - é o seu caso ? RR - Compulsivo total. Fiquei internado um mês
em Vila Serena (clínica em São Paulo), um lugar para
recuperação de dependentes químicos. Parei de beber, de usar
tudo. Aprendi a parar de andar com quem usa e a não ter droga em
casa. A evitar o local da ativa. Não passo em bar nem pra
comprar cigarro. MC - Sua vida mudou muito, então ? E os amigos
? RR - Em termos. Sou o mesmo, mas não estou com
duas doses de Cointreau nem tomei Lexotan há 15 minutos. Quanto
aos amigos, não eram verdadeiros. Cheguei a um ponto que, se eu
não parasse, morria. MC - Como foi para abruptamente com tudo ? RR - Fiquei com o corpo todo empelotado, mas
isso foi tudo. Imediatamente passei a me alimentar muito bem,
tomar remédios homeopáticos e muita vitamina. Acordava às 6
horas, com um sino, para fazer exercícios. Fazia terapia de
grupo. Durante um mês e meio, tive que lembrar e escrever dez
coisas que fiz por causa do álcool e me deram vergonha ou me
afastaram de quem eu amava. MC - Como certas atitudes públicas suas... RR - A última coisa que eu deixei abalar foi o
meu trabalho. Foram só duas ou três brigas públicas, coisa de
bêbado chato. Em casa, era muito pior. Eu ficava dias e dias com
cinco, seis meninos aqui dentro. Coisa típica de decadência gay
absoluta... Não acreditava em nada, tinha uma autopiedade
extrema. Em Vila Serena, eles tentam resgatar sua
espiritualidade. MC - Você acredita em Deus ? RR - Sou católico apostólico romano. Acredito
em um poder superior. Ontem mesmo, fiquei deprimido por causa de
nossa conversa. De falar no Scott, da minha culpa em relação
aos meus pais. Confuso por ter visto meu filho. Culpado por meus
pais serem tão maravilhosos. Tive que trabalhar a noite inteira
para esquecer isso. O que me salva ? é saber que existem coisas
além da minha compreensão e que eu não sou o dono do mundo. MC - Quantos anos tem seu filho ? RR - Está com cinco, mas tem tamanho de oito.
Fico preocupado porque estou me recuperando e não posso
educá-lo. Mora com os avós em Brasília. Ontem eu estive perto
de definir o que sinto. SInto que não estou à altura de
retribuir as coisas boas que recebo. MC - E de onde você tira essa idéia ? RR - Das minhas sensações. Está ligado ao
meu histórico, à minha sexualidade. é como se eu fosse um
modelo de luxo como qual você tem que tomar muito cuidado. MC - Quem é a mãe do seu filho ? RR - Ah, sobre isso eu não falo. MC - Por quê ? RR - Porque é supercomplicado. Só posso dizer
que é uma menina que eu devo ter visto duas ou três vezes na
vida. Aconteceu em São Paulo. MC - Onde ela vive hoje ? RR - Ela morreu em um acidente de automóvel
quando eu estava em Nova York. Eu não falo sobre esse assunto. MC - Dói muito ? RR - Não é que seja dolorido, é porque eu
não sinto absolutamente nada. é como se eu estivesse bloqueado,
é horrível. MC - Você assumiu a paternidade, o que já é
um dado importante... RR - Na verdade, eu não teria muito outra
opção. Pelo modo como as coisas se passaram. Eu não ia
estragar a vida de uma menina tão jovem, entendeu ? MC - E como é sua relação com o Giuliano ? RR - é complicada, uma coisa que eu não
resolvo e empurro com a barriga. Ele só viveu comigo na Ilha do
Governador, pequenininho. Depois, foi viver meus pais. O Guiliano
nasceu em 1989, aí fui para Nova York, inventei que ia ter um
grande caso de amor gay da minha vida. Uma coisa louca. Fiquei
muito mal. Como vou falar para o Giuliano que sou roqueiro e gay,
entende ? MC - Em relação ao Giuliano você também tem
bloqueio emocional ? RR - Não. O que acontece é medo porque eu o
adoro demais. Talvez isso se dilua se morarmos juntos. Toda a vez
que eu o vejo, dá uma vontade de agarrá-lo e dizer:
"Giuliano, vai dar tudo certo. Pronto. Fica aqui
comigo". Mas, então, o que eu vou falar ? O que eu vou
fazer ? Ele é uma pessoa e não um bibelô. Tenho que ter essa
relação normal com ele. Essa euforia, essa felicidade
exagerada, essa emoção que ou você não sabe o que fazer
porque está tão deprimido ou porque está tão contente, eu
pensei que não ia mais sentir desde que eu abandonei o
alcoolismo. Porque eu bebia para sentir mais, entendeu ? MC - Como é a relação entre vocês ? RR - Ele é muito diferente de mim. Acho-o um
pouquinho folgado. Ele é bem "bofinho", do tipo que
tira a camisa, enrola na cintura e diz: "Vamos jogar bola
?" Eu não era assim. Já tem namorada, imagina...Ontem,
quando eu o vi, ele disse: "Pai, já acendeu de novo o
cigarro ?" Desta vez, fiquei quatro meses sem vê-lo. Joguei
o cigarro em um canteirinho e ele disse: "Pai, não pode
jogar o cigarro na plantinha". Não gostei. Como vou lidar
com isso? é uma relação pai-e-filho, mas não é. é como se
eu fosse o irmão mais velho, porque ele chama a minha mãe de
mãe. Eu pergunto: "Cadê sua avó ?" E ele grita:
"Manhêêê". é muito complicado. Mas é uma dádiva e
nada acontece por acaso. A vida não é fácil, mas ainda vamos
resolver tudo.
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Skooter 1998 - 2008 |
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