Legião Urbana Uma Outra Estação
Bullet
bullet
bullet
bullet
bullet
bullet
bullet
bullet
bullet
bullet
bullet
bullet
bullet
bullet
bullet
bullet
bullet
bullet
bullet

eXTReMe Tracker
 

Roqueiro Brasileiro - Renato Russo

Em nova fase de vida, Renato Russo, aos 34 anos, se recupera de um profundo mergulho no álcool e nas drogas e de uma arrebatadora paixão, enquanto confecciona o próximo disco da Legião Urbana e planeja a melhor maneira de educar seu filho, Giuliano de cinco anos.
O roqueiro que em 1982 criou a mais potente banda de rock nativo, em pleno Planalto Central na época da redemocratização do país, levou dois anos para aportar nas gravadoras e ingressar no show business. Desde então não parou mais. Seu maior sucesso veio em 1986, com "Eduardo e Mônica", do LP "DOIS", recordista de vendas entre os sete produzidos pela banda, com 800 mil cópias. Até hoje, o Legião contabiliza 3,5 milhões de discos no mercado.
E quando ninguém mais esperava surpresas, Renato Russo dá nova volta no parafuso e se lança em carreira solo, interpretando canções de amor em inglês, em disco feito para a Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida. Inspirado em sua experiência homossexual, opção que tornou pública em 1988, batizou seu último trabalho de The Stonewall Celebration Concert, em homenagem aos gays nova-iorquinos (lembrando o nome do reduto gay do Greenwich Village, que ficou famoso em 1969 quando homossexuais enfrentaram por três dias a polícia que ameaçava invadir o local).
Em seu discreto apartamento em Ipanema, lugar nobre da Zona Sul carioca, cuja aquisição é motivo de orgulho para quem sempre quis subir na vida trabalhando, ele conta, com cativante sinceridade, sua rica e acidentada trajetória de vida roqueira para Marie Claire.

Marie Claire - Como foi que a música entrou na sua vida ?

Renato Russo - Me contam que aos dois anos de idade eu já punha o disco do Frank Sinatra de volta na capa certa. Quando chegou a adolescência, meu sonho era formar uma banda. Minha família é muito musical. é coisa de gente que tinha piano na sala. Tanto do lado do meu pai, que é paranaense, quanto do lado da minha mãe, que é pernambucana.

MC - Quem são seus pais ?

RR - Meu pai é neto de dois imigrantes italianos, primo de segundo grau de minha mãe e primo-irmão de minha avó. Ele é economista, está aposentado e tem 70 anos. Minha mãe era professora, mas, quando se casou, parou de trabalhar. Meu pai veio para o Rio para trabalhar no Banco do Brasil e inaugurou a geração classe média urbana da família, que antes, plantava mate no Paraná. E tome Banco do Brasil, muito Banco do Brasil...

MC - Então o roqueiro de "Que País é Este ?" é um legítimo filho de funcionário público ?

RR - é, com certeza. Se bem que funcionário do Banco do Brasil não se considera funcionário público, você sabe ...

MC - é elite.

RR - é. Isso influenciou muito minha vida. Hoje, não sei ... Mas eu sempre tive muita estabilidade na vida por causa do banco. Mesmo na época da revolução. Meus amigos contam outro tipo de história. Para a gente, era assim: o Brasil está indo para a frente e nós estamos indo junto, entende ? Eu nunca soube de nada das coisas que aconteciam, Achava o Médici o maior presidente do mundo.

MC - Você nasceu no Rio mesmo ?

RR - Eu era de classe média-média suburbana, da Ilha do Governador. Vivi lá até 1967. Então mudamos para Nova York, onde vivi dos sete aos dez anos. Ficamos mais três anos no Rio e fomos para Brasília, quando eu tinha 13 anos. Nunca me faltou nada. Nada mesmo. Meus pais são maravilhosos, estão juntos até hoje. Tive muito problema com isso porque me senti culpado, durante a adolescência. Por não corresponder às expectativas deles, de uma vida bem comportada. Eles são supersimpáticos, inteligentes, têm um casamento de sonhos, maravilhoso e tal. Para mim, tudo isso era um carma, entendeu ? Eu era e ainda sou um pouco terrível.

MC -Como foi virar gente em Brasília ?

RR - Bem, eu não sei se virei gente ainda ... Vivi em Brasília dos 13 aos 23 anos, e ali, depois de algum tempo, meu mundo da infância que era muito seguro, começou a mudar. Mas se entrar aqui o Júnior (uma auto referência), com oito anos de idade, é a mesma pessoa. Talvez eu estranhe se entrar o Júnior com com 16, 18 anos de idade. Mas os valores são os mesmos.

MC - Por que você se estranharia com 16, 17 anos ?

RR - Porque eu era muito confuso. Foi uma fase que durou muito tempo até o comecinho da Legião Urbana. Eu me perdi. Eu tinha uma vida de sonho. Aos 17 anos acabou, sabe ? Fui para o mundo. Surgiram aquelas confusões sexuais da adolescência e dúvidas.

MC - Qual foi o seu primeiro trabalho ?

RR - Foi na Cultura Inglesa, em Brasília, como monitor. Depois, virei professor. Tinha 15 anos, idade e, que vi meu primeiro show de rock, da Rita Lee, no ginásio do Colégio Marista. Fiquei emocionado. Mas não pude ir ao segundo.

MC - Por quê ?

RR - Porque um resultado médico mudou minha vida. Estava com epifisiólise, doença que destrói a extremidade dos ossos. Minha perna estava pendurada só pela pele, entre o fêmur e a bacia. Meu mundo acabou. Fui operado e fui vítima de erros médicos. O cara colocou o pino dentro do nervo. Contrações involuntárias me faziam gritar de dor. Fiz outras operações. Perdi dois anos de vida com medo de sentir dor, isolado, fora de tudo.

MC - Como você voltou ao mundo depois de dois anos entre a cama e a cadeira de rodas ?

RR - Quando voltei para o colégio, aos 17 anos, era um menino diferente. Distante.

MC - Distante por quê ?

RR - Porque fiquei de fora. Observava tudo com olhar de estrangeiro.

MC - Quem são o Eduardo e Mônica da música ?

RR - Acabei me aproximando, graças a música, de um tal Fernando, que tinha chegado de Paris com uma grande coleção de discos - Traffic, Eric Clapton, tudo. Morava sozinho e namorava uma menina com filhos, a Léo. Isso era 77,78. é ela a Mônica da música e eu sou o Eduardo, só que menos bobo.

MC - Menos bobo ?

RR - é, eu lia, não era aquela coisa clube-e-televisão da letra. Teve uma época que eu trabalhava num jornal, na Cultura Inglesa e fazia faculdade. Sei que quando o Sid Vicious, do Sex Pistols, morreu, tomei o primeiro porre da minha vida. E a partir daí comecei a usar muitas drogas.

MC - Só a partir daí ?

RR - é, quer dizer...eu já usava, mas era de fim de semana. Até essa época era só bagulhinho e álcool. A cannabis (maconha), você sabe, afeta a memória, mas acho que já tínhamos formado o Aborto Elétrico.

MC - Ah! Sua primeira banda punk.

RR - é. Ensaio todo o fim de semana. Nessa fase explodiu tudo o que eu não vivi nos dois anos em que eu fiquei de cama. Apareceu uma nova geração no rock que dizia: "Você não precisa estudar música para fazer rock'n'roll. Você pode pegar uma guitarra e fazer". Eram os punks. Nossos padrinhos foram os Paralamas do Sucesso.

MC - E o que mais o fascinava nisso tudo ?

RR - Ter encontrado um jeito de ter poder. é divertido.

MC - Como foi enfrentar o mundo machista do rock para você que é
homossexual ?

RR - O mundo do rock não é bem assim. Ele é misógino. O que vale nesse mundo não é saber se você é gay ou não. é saber quem é mais louco, quem vende mais disco, quem ganha mais dinheiro. Era aquela coisa de querer se mostrar, do exibicionismo, da vaidade mesmo. De se transformar em ídolo.

MC - Para o Legião, política e injustiça social sempre vêm antes do conflito de gerações...

RR - O Legião chamou muita atenção porque surgiu no período da abertura, da redemocratização. Mas, basicamente, o que escrevemos são canções de amor. Uma coisa talvez até adolescente demais. Até pelo meu histórico familiar, eu preservo a família. Falo mal é das instituições. Eu já fiz estádio vir abaixo e tomei várias atitudes rebeldes, mas dou muito valor a família. Porque ela que me segura.

MC - A geração mais nova é diferente da sua ?

RR - é. São menos agressivos. é uma geração mais passiva. Já estão acostumados à violência. Têm Netuno em Sagitário e não Escorpião, como minha geração, que lida com o instinto de morte, e é mais louca, exibicionista, cheia de altos e baixos. Essa geração atual é mais do "vamos com calma para ver o que vai acontecer".

MC - Você é de esquerda ?

RR - Sou anarquista e individualista. Tenho uma visão poética, mas não me considero poeta. Procuro o belo.

MC - A geração atual é mais alienada que a sua ?

RR - Não. O que existe hoje é consumismo desenfreado. é a TV dizendo qual o seu sonho de consumo. Isso existe há décadas, mas não como hoje. Tanto que agora existe uma discussão ética sobre valores éticos no país e não se chega a conclusão nenhuma. As pessoas perderam o sotaque e Maceió é igual a Porto Alegre. Uma pasteurização que o fascismo usa muito bem.

MC - Seu disco foi feito para a campanha contra a fome do Betinho. Quanto você doou do seus direitos ?

RR - Cinquenta por cento.

MC - Com esse disco, você assume a bandeira do homossexualismo e deflagra uma carreira solo. Vai seguir por aí?

RR - O Legião Urbana continua. São coisas distintas e por isso as músicas do disco solo são "covers" (regravações de sucessos) em inglês.

MC - Primeiro emprego aos 15, primeira banda aos 17. E o primeiro namoro ?

RR - Nunca tive, na verdade. A não ser a Luíza, quando eu tinha 11 para 12 anos, na Ilha do Governador. Mas não era uma coisa de namoro exatamente, era de troca. Porque eu era gay. Eu sou gay, entendeu ?

MC - Você já se reconhecia como gay ?

RR - Eu sabia que era desde os quatro anos de idade. Quer dizer, eu não sabia que era gay-gay! Eu tinha uma afeição muito grande pelas meninas, mas não pensava nelas em termos sexuais, de posse. Não precisava de proximidade física, beijo ou sacanagem. A gente pegava o disco do irmão mais velho da Luíza e ficava ouvindo Cat Stevens e James Taylor, sabe ?

MC - Você nunca sentiu atração sexual por mulher ?

RR - Não. Absolutamente. Aos quatro anos, eu não brincava de médico com meninas. Para mim, isso não tinha graça nenhuma. Eu sabia que sexo era proibido. Sou de família católica, italiana. Sabia que tinha as brincadeiras com as meninas, mas eu queria ver como eram os "peruzinhos" dos meninos.

MC - A repressão influenciou sua opção sexual ?

RR - Não. O ato sexual não tem nada a ver com a sua opção. Tanto é que eu tive um filho e namorei mulheres. Eu não quero citar nomes, mas tive um caso tórrido com uma atriz de cinema e TV. Tem homem que tem uma dificuldade brutal. Comigo não, eu me excito.

MC - Seus maiores amores foram homens, ou mulheres ?

RR - Ambos. Uma coisa eu posso dizer: todas as mulheres que já se apaixonaram por mim são hoje minhas melhores amigas. Eu me apaixonava, mas não carnalmente. Gostava, achava divertido e tudo, mas pensava: "Não é isso que eu quero, está faltando alguma coisa". Por muito tempo busquei relacionamentos com mulheres para provar que eu era homem.

MC - Até quando durou isso ?

RR - Até hoje. Porque eu amo as mulheres. Espero que ela não fique chateada, é uma mulher casada...mas a Carla Camurati, eu encontrei na casa de um amigo. Ela é linda. Meu tipo. Fiquei babando. Pensei: "Gente do céu, é a mulher da minha vida". Mas eu sei que não é por aí. Porque a gente pode estar junto e compartilhar tudo, mas de repente, passa um bofe bonito...Sabe, eu tenho tara por bunda cabeluda, por pé, por falo, pelo torso masculino, pela coisa da barba. O que me atrai na mulher é a essência da mulher. Não o corpo. No homem, a essência se traduz no corpo. Também acho que nunca vou satisfazer a mulher completamente. Sou o bofe por excelência. Sou macho, minha filha... Me sinto muito mais a vontade em uma relação com outro homem. Homem não pode fingir. Ou está de pau duro ou não está. Eu entendo o que o outro cara pensa, conheço o cheiro, conheço o toque. Com a mulher, eu me sinto desonesto. E elas se entregam tanto que eu me sinto tão pequeno...E não é a lôraburra que se apaixona por mim. Era a (escritora) Marina Colassanti, mulheres casadas...

MC - Até hoje isso acontece ?

RR - Hoje eu já sei que sexo não é tudo e que a amizade é tão importante quanto. Como dizia a Denise (Bandeira), "a gente vira amante cósmico". Sabe, eu não sou monogâmico ...

MC - Qual foi o seu primeiro caso homossexual ?

RR - Aos nove anos. Foi um escândalo na família. Foi com o meu primo. O engraçado é que eu sempre gostei de homem bonito, e ele era lindo. Eu era o inteligente, com idéias maravilhosas, e ele era o atleta, o Adônis, o Davi de Michelangelo, que até hoje tem problemas de dependência química mas ainda assim não conseguiu ficar feio. Até os 13 anos, tivemos uma amizade absurda, depois ele seguiu o caminho dele e eu continuei perdidamente apaixonado.

MC - Como o Stonewall Celebration foi concebido ?

RR - Nele tem músicas que lembram o que passei. Como "The Ballad Of The Sad Young Man", que toca no problema da dependência química, de se pertencer a uma minoria. Mas o que existe no disco não é o problema gay. é todo o espírito humano. Eu estou cantando para um outro cara, mas são canções de amor.

MC - Você se inspirou no seu último grande amor ?

RR - é. O Robert Scott Hickmon. Foi ele que pintou essas paredes (do apartamento onde mora). Vivemos juntos aqui. Ele era gay de carteirinha. Morava na Market Street, em San Francisco. Lá, o padeiro, o açogueiro, o dentista, todos são gays. Eu o conheci em 1989, lixeiro, com uma mochila nas costas, numa atitude de coitadinho. Ele veio comigo para o Brasil em 1990, voltou para lá e retornou para vivemos juntos. Mas aí, você sabe, todo gay é macho. Ele achou que podia passar por heterossexual.

MC - No Rio, ele resolver passar por hetero de repente ?

RR - Bem, ele era white trash: branco, pobre, filho de mãe alcoólatra, pai que espancava, tudo de pior...E, de repente, achamos que um podia ajudar o outro. Nos apaixonamos. O plano era ele me dar forças para que eu parasse de beber. Eu e daria força para ele para de tomar speed (anfetamina).

MC - E voces pararam ?

RR - Eu só parei na segunda vez que ele veio porque peguei hepatite. Quase morri. Ele era o atleta, o belo, o prático, consertava coisas. Aquela mesma coisa do Zé Eduardo (o primo). E eu era o cara dos livros. O Scott era um disléxico problemático, lindo, louro..."Que maravilha", eu pensei "que coisa romântica". Mas ambos tínhamos coisas muito mal resolvidas. Fizemos terapia de casal. Não funcionou porque ele tinha uma culpa enorme quando chegou ao Brasil.

MC - Culpa por ser gay ?

RR - Ele se achava um cidado de segunda classe por ser semi-analfabeto, ter um histórico de criança de reformatório, de orfanato que, bonita sempre encontrava homens maravilhosos para tomar conta. No gueto, o problema dele não aparecia. Aqui, foi bem aceito pelos meus amigos, que me respeitam. Nas, de repente, aflorou o lado macho e ele passou a sofrer por não ter emprego, não conseguir trabalho. Foi em 1990, o Collor tinha roubado o dinheiro de todo o mundo. E ele tinha que me pedir dinheiro. Até tentou provar a masculinidade transando mulher. Como a gente estava nessa de liberar o corpo, achei que tudo bem. A gente não estava casado e queríamos fugir desse modelo hetero de ficar preso. Eu tenho um filho, imagine! Cada um com sua vida, mas degringolou.

MC - Transar mulher é álibe para o quê ?

RR - Ele me disse que, mesmo se atração, transar com mulher lhe dava sensação de força. Era mais fácil para ele ser hetero e batalhar a vida do que tentar ser gay e digno. Voltou para os Estados Unidos e nunca mais o vi.

MC - Você chegou a fazer o teste de Aids ?

RR - Não falo sobre isso. Dá medo, é uma coisa terrível. Faço parte de uma geração que foi pega no meio do caminho. Tive que erotizar o uso da camisinha. Senão, na hora de procurar por ela, você já broxou. Para não usá-la, o pessoal começou a fazer mais sexo sem penetração, achando que não pega Aids. Virou tudo filme de gay, sabe ? Aquela coisa de gozar fora. Mas eu não preciso dessa coisa de teste e quando eu fiz foi...

MC - Um alívio ?

RR - Foi horrível esperar o resultado. Faço check-up todo ano e descobri que estava com hepatite B. Os médicos me pediram para fazer teste de Aids. Fiz três exames até ter certeza do resultado, que deu positivo no primeiro exame e foi um horror... Você tem que falar com seus amigos e todos tiveram que fazer teste de Aids. Aí fiz outro (Western Blot, exame mais caro e mais preciso). Repeti mais uma vez durante o tratamento da hepatite. E esses dois deram resultado negativo. O médico me disse que até segunda ordem eu sou soronegativo. Mas ajo como se fosse soropositivo. Sexo seguro total. Já passei por tanta coisa... E sempre maltratei muito meu organismo. Você sabe, não é legal falar isso, mas quem é realmente saudável tem menos possibilidade de contrair Aids. Não faço as mais loucuras que fazia antigamente. E tem certas coisas que caem na área da dúvida, como sexo oral, por exemplo...

MC - Depois que o Scott se foi, você começou a usar heroína ?

RR - Ele ainda estava aqui. De tudo que usei, o pior foi o álcool e tranquilizantes. Heroína foi horroroso, mas só um mês e meio. No final de julho de 1990 ele viajou e eu continuei. Uma coisa meio junkie mesmo...Depois decidimos que ele voltaria e a gente iria se cuidar. Bem, não posso dizer que foi ruim. Na verdade, foi péssimo.

MC - Como assim ?

RR - É, porque, a gente usava heroína para ficar namorando. Ele conheceu um "rajneesh" (seguidor de Osho, como é atualmente conhecido o guru indiano) na praia, que tinha a droga. No Rio, heroína não existe. Eu nunca tinha experimentado. Foi aquela coisa... Um glamour muito grande. O Scott já tinha experimentado tudo. Pegamos leve, não usávamos agulha nem nada. Era só fazer uma cabecinha de palito de fósforo assim... E o mundo fica maravilhoso por oito horas. Em termos de dependência física, é a pior droga. Tudo que é droga é ruim.

MC - Embora, na hora, você ache bom ?

RR - Não é achar bom. Sempre tinha um motivo: solidão, veia autodestrutiva, varar a noite trabalhando...

MC - Como você parou com a heroína ?

RR - é horrível parar. Dá uma agonia... Se você está sentado, quer ficar de pé; se está em pé, quer ficar sentado. Dá vontade de sair da pele, um enorme vazio. Na primeira vez, fui até onde dava e me enchi de Valium (tranquilizante) e remédio para dormir. Acordei maravilhoso e, de novo, me droguei. Mas, da segunda vez, foi brabo. Chamei umas amigas para o Marina Hotel, onde morei muito tempo. Não adiantava rezar, tomar banho de sal grosso, nada. Era deitar e esperar.

MC - Você chegou a pensar em suicídio ?

RR - Não, mas já pensei nisso. Não de levar às últimas consequências, mas...

MC - Dizem que você declarou em um show que chegou a tentar cortar os pulsos por causa de uma menina.

RR - Não, isso não tem nada a ver.

MC - Então você falou de bobeira ? Foi uma invenção ?

RR - Show é show, né ? Isso deve ter sido uma introdução a "Ainda é Cedo" (do primeiro LP, Legião Urbana). é recurso dramático. Mas não aconteceu, não. Eu tive um pequeno acidente, mas não foi por querer me matar nem nada. Eu só queria ver como é que era. Uma coisa de louco. Só que me deu o maior susto.

MC - Foi em Brasília ?

RR - Foi. Eu tinha 20 e poucos anos. Coisa de bêbado. Eu estava lá entediado, cismado que queria ser artista plástico. Comprei uns guaches e ficava meus desenhos e aquarelas. Comecei, de repente, a diluir tinta em urina. Me cortava e desenhava com sangue, todo fora de controle, coisa de irresponsável...

MC - E como você se safou disso ?

RR - Fiz uma operação da qual ainda tenho marcas.

MC - E não era uma coisa de querer liquidar com a vida ?

RR - Não, imagina... Claro que não.

MC - Desde quando você parou com as drogas ?

RR - Desde 3 de abril de 1993, logo após meu aniversário. A reprogramação de vida que faço desde então é definitiva. Para valer. Você percebe que a dependência química é uma doença crônica, primária, progressiva e fatal. Eu não sou sem-vergonha, louco, nem depressivo, nem melancólico. Sou dependente químico. Interessante é que por trás de todo dependente está sempre um perfil psicológico sensível e inteligente. São todos compulsivos.

MC - é o seu caso ?

RR - Compulsivo total. Fiquei internado um mês em Vila Serena (clínica em São Paulo), um lugar para recuperação de dependentes químicos. Parei de beber, de usar tudo. Aprendi a parar de andar com quem usa e a não ter droga em casa. A evitar o local da ativa. Não passo em bar nem pra comprar cigarro.

MC - Sua vida mudou muito, então ? E os amigos ?

RR - Em termos. Sou o mesmo, mas não estou com duas doses de Cointreau nem tomei Lexotan há 15 minutos. Quanto aos amigos, não eram verdadeiros. Cheguei a um ponto que, se eu não parasse, morria.

MC - Como foi para abruptamente com tudo ?

RR - Fiquei com o corpo todo empelotado, mas isso foi tudo. Imediatamente passei a me alimentar muito bem, tomar remédios homeopáticos e muita vitamina. Acordava às 6 horas, com um sino, para fazer exercícios. Fazia terapia de grupo. Durante um mês e meio, tive que lembrar e escrever dez coisas que fiz por causa do álcool e me deram vergonha ou me afastaram de quem eu amava.

MC - Como certas atitudes públicas suas...

RR - A última coisa que eu deixei abalar foi o meu trabalho. Foram só duas ou três brigas públicas, coisa de bêbado chato. Em casa, era muito pior. Eu ficava dias e dias com cinco, seis meninos aqui dentro. Coisa típica de decadência gay absoluta... Não acreditava em nada, tinha uma autopiedade extrema. Em Vila Serena, eles tentam resgatar sua espiritualidade.

MC - Você acredita em Deus ?

RR - Sou católico apostólico romano. Acredito em um poder superior. Ontem mesmo, fiquei deprimido por causa de nossa conversa. De falar no Scott, da minha culpa em relação aos meus pais. Confuso por ter visto meu filho. Culpado por meus pais serem tão maravilhosos. Tive que trabalhar a noite inteira para esquecer isso. O que me salva ? é saber que existem coisas além da minha compreensão e que eu não sou o dono do mundo.

MC - Quantos anos tem seu filho ?

RR - Está com cinco, mas tem tamanho de oito. Fico preocupado porque estou me recuperando e não posso educá-lo. Mora com os avós em Brasília. Ontem eu estive perto de definir o que sinto. SInto que não estou à altura de retribuir as coisas boas que recebo.

MC - E de onde você tira essa idéia ?

RR - Das minhas sensações. Está ligado ao meu histórico, à minha sexualidade. é como se eu fosse um modelo de luxo como qual você tem que tomar muito cuidado.

MC - Quem é a mãe do seu filho ?

RR - Ah, sobre isso eu não falo.

MC - Por quê ?

RR - Porque é supercomplicado. Só posso dizer que é uma menina que eu devo ter visto duas ou três vezes na vida. Aconteceu em São Paulo.

MC - Onde ela vive hoje ?

RR - Ela morreu em um acidente de automóvel quando eu estava em Nova York. Eu não falo sobre esse assunto.

MC - Dói muito ?

RR - Não é que seja dolorido, é porque eu não sinto absolutamente nada. é como se eu estivesse bloqueado, é horrível.

MC - Você assumiu a paternidade, o que já é um dado importante...

RR - Na verdade, eu não teria muito outra opção. Pelo modo como as coisas se passaram. Eu não ia estragar a vida de uma menina tão jovem, entendeu ?

MC - E como é sua relação com o Giuliano ?

RR - é complicada, uma coisa que eu não resolvo e empurro com a barriga. Ele só viveu comigo na Ilha do Governador, pequenininho. Depois, foi viver meus pais. O Guiliano nasceu em 1989, aí fui para Nova York, inventei que ia ter um grande caso de amor gay da minha vida. Uma coisa louca. Fiquei muito mal. Como vou falar para o Giuliano que sou roqueiro e gay, entende ?

MC - Em relação ao Giuliano você também tem bloqueio emocional ?

RR - Não. O que acontece é medo porque eu o adoro demais. Talvez isso se dilua se morarmos juntos. Toda a vez que eu o vejo, dá uma vontade de agarrá-lo e dizer: "Giuliano, vai dar tudo certo. Pronto. Fica aqui comigo". Mas, então, o que eu vou falar ? O que eu vou fazer ? Ele é uma pessoa e não um bibelô. Tenho que ter essa relação normal com ele. Essa euforia, essa felicidade exagerada, essa emoção que ou você não sabe o que fazer porque está tão deprimido ou porque está tão contente, eu pensei que não ia mais sentir desde que eu abandonei o alcoolismo. Porque eu bebia para sentir mais, entendeu ?

MC - Como é a relação entre vocês ?

RR - Ele é muito diferente de mim. Acho-o um pouquinho folgado. Ele é bem "bofinho", do tipo que tira a camisa, enrola na cintura e diz: "Vamos jogar bola ?" Eu não era assim. Já tem namorada, imagina...Ontem, quando eu o vi, ele disse: "Pai, já acendeu de novo o cigarro ?" Desta vez, fiquei quatro meses sem vê-lo. Joguei o cigarro em um canteirinho e ele disse: "Pai, não pode jogar o cigarro na plantinha". Não gostei. Como vou lidar com isso? é uma relação pai-e-filho, mas não é. é como se eu fosse o irmão mais velho, porque ele chama a minha mãe de mãe. Eu pergunto: "Cadê sua avó ?" E ele grita: "Manhêêê". é muito complicado. Mas é uma dádiva e nada acontece por acaso. A vida não é fácil, mas ainda vamos resolver tudo.



Por: Maria Helena Passos
Fonte: Revista Marie Claire - Abril ou Maio de 1995

 

Política de Privacidade

Skooter 1998 - 2008