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Mania de Legião
Revista "Época",
10/99
Acústico, regravações, tributos e pré-história contada em livro relembram
banda de Renato Russo
O legado de Renato Russo (1960-1996) transformou-se em objeto de culto como
poucas vezes se viu no cenário musical brasileiro. Para alimentar o mito,
chegam às lojas no dia 27 o CD e o vídeo Acústico MTV, da Legião Urbana,
gravado em janeiro de 1992. A emissora reprisa o programa que originou o
lançamento nos dias 29, 30 e 31. Uma série de outros fatos contribui para
manter vivos os nomes do extinto grupo e seu líder. Bandas covers proliferam
pelo país, assim como releituras de seu repertório por ídolos do pop nacional
como Zélia Duncan, Paralamas e Lulu Santos.
O embrião da Legião Urbana, o Aborto Elétrico, terá algumas histórias
relatadas no livro A Turma da Colina, de Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial,
com lançamento previsto para março. "É um livro sobre fatos reais
contados como romance, sem pretensão histórica", diz o autor, que
descreve Renato como "o líder supremo, o messias" no cenário
roqueiro brasiliense dos
anos 80.
As canções da Legião também ultrapassaram fronteiras e ganharam versões
em italiano (no CD Forza Sempre, de Jerry Adriani) e espanhol (em discos do
grupo argentino A77aque e do cantor porto-riquenho Ricky Martin). "Renato
foi um grande poeta e nos inspira muito", diz o baterista Leo de Cecco, do
A77aque. O grupo escolheu "Perfeição" para abrir o CD Otras
Canciones, lançado no Brasil. "A letra é muito realista e tem tudo a ver
com a situação atual da Argentina", diz Leo.
O canal a cabo Multishow prepara um especial para o ano que vem com vários
grupos e artistas num tributo à Legião. Em 2000 Renato também ganha um museu
em Brasília. Enquanto isso, a procura por seus discos não pára. Que País É
Este - 1978/1987 acaba de ultrapassar a marca de 1 milhão de cópias. O
recordista é As Quatro Estações (1989), com 1,6 milhão.
O lançamento de Acústico MTV, com tiragem inicial de 500 mil, não significa
que a fonte secou. "Há muita coisa de shows e sobras de estúdio que um
dia poderão ser lançadas", diz o baterista Marcelo Bonfá. No entanto,
ele e o guitarrista Dado Villa-Lobos, remanescentes do grupo, estão mais
preocupados com a própria carreira-solo e demonstram certo desânimo em falar
da Legião. "Emocionalmente é muito complicado, parece um velório
interminável. A gente precisa pensar mais para a frente", diz Dado. Entre
as curiosidades da banda que circulam em fitas de fãs-clubes estão uma versão
rock do samba "Juízo
Final", de Nelson Cavaquinho, que deveria ter entrado no álbum Dois, de
1986, e as inéditas "O Grande Inverno na Rússia" e "Anúncios
de Refrigerantes".
Toda essa avalanche de eventos contrasta com a atitude de Renato, artista sempre
avesso a badalações e idolatria. O projeto da MTV naquele tempo não tinha o
poder comercial nem a conotação pomposa de hoje. A Legião foi a primeira
banda de rock a participar do projeto, que estreou com João Bosco no Brasil. O
trio gravou o programa apenas como alternativa para ter imagens de promoção do
disco V, já que não gostava de fazer videoclipes.
Os arranjos são despojados - dois violões, bateria e percussão leves. O
roteiro foge do lugar-comum de discos do gênero, evidenciando canções menos
desgastadas do repertório, caso de "Baader-Meinhof Blues",
"Metal Contra as Nuvens" e "Sereníssima". Coerentemente, os
integrantes foram pescar pérolas obscuras de Neil Young, Joni Mitchell e até
Menudo ("Hoje a Noite Não Tem Luar"), uma brincadeira que
ironicamente virou a música de trabalho do CD. O Acústico acaba soando como um
refresco depois dos derradeiros discos da banda, os soturnos A Tempestade (1996)
e Uma Outra Estação (1997). Tudo soa leve e despretensioso, o trio atua
integrado, Renato emociona e diverte. Faz falta.
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