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Reportagens
/ Entrevistas
Venda de
discos de Renato Russo dobra em SP
19h03 - 11/10/1996
SÃO
PAULO, SP (Agência Folha) - A morte de Renato Russo
duplicou a venda de discos do músico e da banda Legião
Urbana hoje, em São Paulo. Francisco Nolberto Lucas,
gerente da Planet Music Mega Store, maior loja de discos
da cidade, disse que a procura aumentou da mesma forma
que depois da morte dos integrantes do grupo Mamonas
Assassinas. Funcionários das lojas Musical Box, Aqualang
e Hi-Fi Laser disseram que a vendagem dos discos de
Renato Russo e do Legião Urbana foi 50% maior. Os
trabalhos mais procurados, segundo os lojistas, são os
discos ''Equilíbrio Distante'' (trabalho solo com
músicas italianas), ''Dois'' e ''A Tempestade'' (disco
mais recente do Legião Urbana). O cantor e compositor
Renato Russo, ou Renato Manfredini Jr., nasceu no Rio em
27 de março de 1960, abandonou o jornalismo e a
profissão de professor de inglês para se tornar
vocalista da banda Aborto Elétrico, em 1978. A banda
teve vida curta. Com os amigos Dado Villa-Lobos e Marcelo
Bonfá, criou então o Legião Urbana. O primeiro disco
foi lançado em 1984, e teve sucesso relativo. O grupo
estourou com o segundo álbum, ''Dois'', em 1986. É
desse disco a música ''Eduardo e Mônica''. O último
disco, ''A Tempestade ou O Livro dos Dias'', foi lançado
no mês passado, sem divulgação para a imprensa.
Segundo o grupo, ''o disco fala por si''. Em 12 anos de
carreira, o grupo contabilizou mais de 4,5 milhões de
discos vendidos.
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Mãe diz
que Renato Russo desistiu de viver
12h44 - 12/10/1996
RIO
DE JANEIRO, RJ (Agência Folha) - A mãe de Renato Russo,
Maria do Carmo Manfredini, disse hoje de manhã, depois
da missa de corpo presente de seu filho, que ele ''quis
chegar ao fim''. ''Não se suicidou, mas simplesmente
não lutou'', afirmou. Apesar de o médico do músico, o
clínico-geral Saul Bteshe, ter afirmado ontem que Russo
morreu em consequência de Aids, Maria do Carmo disse que
foi anorexia nervosa (doença que causa perda do apetite)
a causa da morte. Bteshe, que assinou o atestado de
óbito de Russo, informou que o cantor e compositor tinha
o vírus HIV havia seis anos. Segundo Maria do Carmo
Manfredini, nos últimos dias, Russo vivia um ''período
muito grande de depressão. Realmente não queria mais
viver. Sabe, ele foi se entregando. Ele achava que não
tinha mais nada''. Ela afirmou que o compositor estava em
crise desde o início do ano. ''O nome 'A Tempestade ou O
Livro dos Dias' (último disco da banda, lançado em
setembro) foi escolhido justamente por causa disso,
porque havia uma tempestade dentro dele. O dever
profissional dele era muito forte. Ele me disse que
queria deixar esse disco porque não sabia se faria
outro'', afirmou.
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Gravadora
diz que Russo deixa material inédito
12h56 - 12/10/1996
RIO
DE JANEIRO, RJ (Agência Folha) - O presidente da
gravadora EMI, Aloísio Reis, disse que o grupo Legião
Urbana tem muito material inédito gravado com a
participação de Renato Russo. Segundo ele, uma reunião
com os demais participantes do grupo, provavelmente daqui
a duas semanas, definirá o que será feito com esse
material ''Todo grupo de rock sempre tem material
gravado. No caso do Legião Urbana, esse material é
relativamente grande'', disse Reis. ''Até agora não
tivemos tempo de pensar, só de chorar'', afirmou. O
Legião Urbana é contratado da EMI desde 1984 e lançou
todos os seus discos pela gravadora. Segundo Reis, o
último disco do grupo, ''A Tempestade ou O Livro dos
Dias'' foi lançado com uma prensagem de 340 mil cópias,
a maior tiragem inicial de um disco do grupo. Com a morte
de Renato Russo, a EMI perdeu seu segundo integrante do
time de líderes de vendagem em menos de um ano. O
primeiro foi o grupo Mamonas Assassinas, cujos
integrantes morreram no dia 2 de março deste ano, em
acidente de avião.
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Corpo de
Renato Russo é cremado no Rio
12h35 - 12/10/1996
RIO
DE JANEIRO, RJ (Agência Folha) - Em uma cerimônia
simples, como era o desejo do cantor e compositor Renato
Manfredini Júnior, o Renato Russo, 36, o corpo do
artista foi cremado na manhã de hoje no cemitério São
Francisco Xavier, no Caju (zona portuária do Rio).
Poucos familiares e amigos compareceram ao cerimonial de
cremação do corpo de Russo, dentre eles os pais, Renato
e Maria do Carmo Manfredini, e os artistas Marina Lima e
Marco Nanini. O guitarrista Dado Villa-Lobos e o
baterista Marcelo Bonfá, que formavam com Russo o
núcleo central do grupo Legião Urbana, não
compareceram ao cerimonial. ''Estou muito triste, foi uma
perda profunda'', disse Marina. Maria do Carmo Manfredini
disse que as cinzas do corpo de Russo serão jogadas em
um jardim florido. A cremação do corpo começou às 9h.
Às 9h45, a administração do crematório liberou a
entrada dos fãs, após a saída dos familiares.
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Texto
escrito por Renato Russo em abril
de 1983 para o primeiro grande show
Estado - 11/10/1996
Os
componentes dos quatro conjuntos fazem parte do que era
conhecido como "a turma da colina da UnB", isso
por volta de 1977, época da abertura e da
redemocratização (embora a UnB ainda apresentasse
alguns problemas). Um maço do Hollywood estava por volta
de Cr$ 15,00 e, na cidade, não existia nada para se
fazer. Mas aparece então o que iria acabar de vez com a
pouca identidade que a capital tinha com a música
discoteca. Brasília deixa de ser Brasília e passa a ser
Rio de Janeiro, como o País inteiro. Para quem gostava
de rock, esse foi o fim. Basta ser chamado de colonizado
o tempo todo; com a moda disco a situação piora
sensivelmente. Ainda mais porque na mesma época aparece
um movimento original e anárquico que pretende acabar
com os falsos modismos. É a moda levada ao extremo:
antimoda, antiestética, antitudo. Mas aqui é bem mais
fácil controlar a juventude oferecendo a válvula de
escape ideal e não uma música que faça todos pensarem
e questionarem as hipocrisias construtivas de uma
sociedade falsa, à beira da autodestruição atômica.
Ha-ha. Música discoteca não fala desse feito. E a
música popular brasileira parece estar mais preocupada
com cama e mesa e a sensação das cordilheiras. E o
pessoal que faz letras espertas não gosta de tocar rock
no Brasil. O que fazer? Será que estão todos
satisfeitos? Rock é uma atitude, não é moda. É
música da África. Não é música americana. Tem no
mundo inteiro. Texto escrito por Renato Russo em abril de
1983 para o primeiro grande show reunindo as quatro
principais bandas de Brasília: Legião Urbana, Plebe
Rude, Capital Inicial e XXX.
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Renato
captou espírito da geração
criada debaixo do militarismo
Estado - 11/10/1996
O
rock brasileiro perdeu seu maior poeta. Renato Russo,
vocalista e compositor da Legião Urbana, captou o
espírito de toda a blank generation criada sob as botas
do militarismo pós-64. "Somos burgueses sem
religião, somos o futuro da nação: geração
Coca-Cola," vociferava no primeiro disco da banda,
em 1984, quando o Brasil retomava os caminhos da
democracia. Aos 36 anos, Russo andava deprimido havia
muito tempo. Polêmico e controverso, Russo foi punk,
definiu seu grupo de rock como filhos da revolução e
nos últimos anos adotou uma posição aberta em
relação a sua condição de homossexual sem fazer disso
uma bandeira. Ao lado de Dado Villa Lobos e Marcelo
Bonfá, Russo foi o responsável pela inserção de
Brasília no panorama do rock nacional. Aberta a porta
pela Legião, outros grupos como Detrito Federal, Plebe
Rude e Capital Inicial atingiram os ouvidos das novas
gerações brasileiras na metade dos anos 80. Todos eram
muito zangados. Brasília foi amada e odiada por Renato
Russo. Foi na capital do Brasil que ele desenvolveu seu
rock e forjou a fúria e o sarcasmo de seus versos bem
construídos. Foi em Brasília, em 1988, que ele foi
execrado pela cidade que criou o rock da Legião Urbana.
Um show da banda no estádio Pelezão, em junho de 1988,
marcou para sempre a trajetória da banda. Um fã invadiu
o palco e começou a agredir Russo. Foi o estopim de uma
noite infernal. No final, 385 feridos e um discurso
inflamado de Russo prometendo nunca mais tocar em
Brasília. O episódio foi classificado como uma espécie
de Altamont brasileiro, referência a um concerto dos
Rolling Stones em dezembro de 1969 que quase acabou em
tragédia. Clone vocal de um ídolo da Jovem Guarda,
Jerry Adriani, Russo deu a volta por cima nessa armadilha
do destino. E fez o caminho pelo avesso: se Jerry
começou cantando em italiano, Russo acabou a carreira
com um disco solo na língua de Dante. Deprimido
crônico, dependente confesso de álcool e cocaína,
Russo sempre atraiu a atenção dos repórteres, fosse
pelo hábito de quase não falar à imprensa ou pela
torrente de declarações bombásticas que fluía quando
ele resolvia abrir a boca.
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Renato
segundo seus amigos
Estado - 11/10/1996
"Era
um idealista", diz Roger Moreira, do Ultraje
Amigos, colegas e vizinhos se
manifestaram sobre a morte de Renato Russo. A seguir,
alguns dos depoimentos sobre o cantor.
Nota oficial da gravadora da Legião Urbana, EMI-Odeon
"Lamentamos profundamente a morte ocorrida nesta
madrugada do nosso querido Renato Russo, cuja memória
permanecerá viva na lembrança do povo perpetuada que
está em seu inesgotável talento e na beleza de suas
obras e interpretações, que tivemos o privilégio de
fixar para a eternidade. Mais do que um extraordinário
artista, perdemos um grande companheiro e amigo. Que
Renato Russo descanse em paz."
Roger
Moreira, vocalista do Ultraje a Rigor "Estou
chocado. O Renato era um cara de um carisma
impressionante, um idealista. Admirava também o seu
caráter - nunca precisou se vender ao sistema para fazer
sucesso. Ele viveu pra dizer o que pensava."
Edgar Scandurra, guitarrista do IRA!
"O Ira e o Legião começaram a carreira juntos, em
1977. A gente com o nome de Subúrbio e eles como Aborto
Elétrico. A gente tocava nos mesmo lugares aqui em São
Paulo - Rose Bom Bom, Radar Tam Tam, Napalm. Era todo
mundo adolescente na época, lembro dele me presenteando
com um disco do Small Faces, com uma dedicatória
super-carinhosa. Me dava muito bem com o Renato."
Marina Lima, cantora "Nós fizemos um
grupo de estudos de filosofia juntos. Mas não posso
dizer que era íntima dele, seria uma blasfêmia. O
Renato era uma pessoa muito cerimoniosa. Acho uma perda
enorme para a música brasileira, ele tinha um talento
ímpar. Para minha geração em particular é uma perda
terrível, igual à do Cazuza. Fica um vazio enorme, um
sentimento amargo de incompreensão desse tempo em que
vivo."
Carlos Trilha, tecladista (tocou em todas
as faixas do último disco do Legião, A Tempestade)
"Renato sempre foi muito triste e sozinho, mas nos
últimos três meses, se isolou completamente."
Francisca Maria da Silva, 50 anos (vizinha
de Renato Russo) "Gostava muito de ouvir ele tocar
teclado. Ele costumava tocar Brasileirinho, Asa Branca e
Pais e Filhos, uma música que me marcou muito. Há três
semanas, parei de ouvir o teclado e achei que ele tivesse
viajado. O relacionamento dele com os vizinhos era por
meio das músicas que saíam de seu apartamento."
Lulu Santos, cantor e guitarrista
"Estou muito chocado para falar a respeito"
Toni Garrido, vocalista do Cidade Negra
"O Cidade Negra sempre fez reggae, mas mesmo assim a
gente foi muito influenciado pelas letras dele. O Renato
era um ídolo para todo mundo da nossa geração. Eu
ficava tremendo toda vez que era apresentado a ele."
Roberto Dranoff, da Red Hot Organization
"Passei anos tocando Legião na Jovem Pan. Chegamos
a pensar em convidá-lo para entrar no projeto do Red Hot
and Rio. Para mim, ele e o Arnaldo Antunes são os
melhores do Brasil."
Carlos Maltz, baterista da banda gaúcha
Engenheiros do Hawaii "Renato Russo foi o maior
cantor de minha geração, e eu comecei a tocar imitando
o Legião Urbana. Espero que agora ele encontre o seu
caminho."
Fernanda Takai, vocalista da banda mineira
Pato Fu "É um episódio muito triste, não há como
medir a perda de um artista assim. A pesar de atitudes de
não querer dar entrevistas ou mesmo fazer shows, Renato
Russo era adorado pelos fãs: para ele, suas palavras
valiam ouro. Com o tempo, a gente vai sentir o peso de
sua morte para a história do rock brasileiro."
Cascão, vocalista da banda Detrito Federal
"É completa a influência que ele teve sobre mim.
Brasília tinha uma cara administrativa e ele foi o
estopim que mostrou a cara jovem dela. A influência dele
no som da minha banda, Detrito Federal, também foi
gigantesco. Quando ouvi o Aborto Elétrico (primeira
banda de Renato) pensei: É isso que eu quero fazer. E o
lema da época era o do it yourself, então fui atrás de
uma banda. Pode-se dizer que o Renato Russo é o nosso
JK, o que o Juscelino Kubitschek foi para Brasília o
Renato foi para a juventude dela."
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Corpo do
músico será cremado
Estado - 11/10/1996
RIO - O cantor e
compositor Renato Russo, de 36 anos, vocalista da banda
Legião Urbana, morreu à 1h15 de sexta-feira, em sua
casa, em Ipanema, Zona Sul. Seu corpo será cremado neste
sábado, às 9 horas, no Cemitério São Francisco
Xavier, no Caju, Zona Norte. De acordo com o atestado de
óbito, assinado pelos médicos Saul Pteshe e Humberto
Mauro R. L. Vasconcelos, sua morte foi causada por
septicemia, broncopneumonia e infecção urinária. Ele
tinha Aids havia seus anos. Parentes e amigos de Renato
Russo (o nome artístico de Renato Manfredini Jr.) não
confirmaram. "Está todo mundo falando isso, mas é
uma coisa que ele não falava", disse Fernanda
Villa-Lobos, mulher do guitarrista da Legião, Dado
Villa-Lobos. "Não cabe a mim comentar." Ela
afastou a hipótese de Renato Russo ter-se suicidado.
"Ele não teria coragem." O cantor estava
deprimido havia vários dias, recusando-se a comer e a
sair de seu quarto, segundo parentes. "Ele estava
muito triste e falava em morte até nas suas
músicas", disse Asmar Manfredini, tio de Renato.
Segundo Fernanda, o cantor estava anoréxico e anêmico.
A prima de Russo, Leisa do Espírito Santo Manfredini,
também negou a hipótese de suicídio: "Ele estava
com pneumonia." Suicídio - O boato de que o cantor
havia se matado circulou no Rio há três dias e chegou a
ser noticiado em algumas rádios. Informado sobre isso, o
diretor-artístico da EMI, João Augusto, ligou
imediatamente para a casa do cantor e obteve notícias de
que ele estava bem. Fernanda contou que, na ocasião,
Dado Villa-Lobos foi à casa do parceiro para saber o que
havia ocorrido. O guitarrista conversou com o pai do
cantor, o funcionário público Renato Manfredini, e
ficou preocupado com a situação do amigo. Ele contou a
Dado que seu filho não comia havia vários dias e se
recusava a sair do quarto. "Dado, então, conversou
com Renato, que chorou muito, demonstrando estar
realmente deprimido", contou Fernanda. "Não
sabíamos que a situação era tão grave." A
depressão profunda de Renato Russo é confirmada por
seus vizinhos, amigos e parentes. "Ele andava muito
triste", disse a prima Leisa. "Há 15 dias ele
estava cabisbaixo, triste e deprimido", contou o
vizinho e amigo do cantor, Chico Guarani. O amigo lembrou
ainda que quando estava bem, Renato ouvia som em um
volume muito alto. "Há dois meses não se escuta
música por aqui." Doença - Uma equipe de
enfermagem acompanhava o estado de saúde de Renato Russo
em casa, desde que ele começou a ter crises de
pneumonia. "Ele nunca quis se hospitalizar",
contou o tio do cantor, Asmar Manfredini. De acordo com
vizinhos, Renato Russo se submetia a um tratamento de
desintoxicação de drogas. O cantor já havia declarado
em entrevistas que era dependente de cocaína e de
álcool desde os 16 anos de idade. Na hora da morte,
Renato Russo estava no quarto de seu apartamento
conjugado, acompanhado de um enfermeiro e de seu pai, que
veio de Brasília há um mês para cuidar dele. A mãe do
cantor, Carmem Manfredini, chegou neste sábado de manhã
à cidade. Renato Russo deixa um filho, Giuliano
Manfredini, de 7 anos, que também está no Rio, na casa
dos bisavós. Diversos amigos do cantor estiveram
sexta-feira em seu apartamento, entre eles, a vocalista
do conjunto Sex Beatles, Chris Broun, o fotógrafo
Flávio Colker, que fez diversas capas do disco da banda,
e o ator Maurício Branco. Nenhum deles quis comentar a
morte do cantor. Diversos fãs de Renato Russo fizeram
vigília durante todo o dia de sexta-feira em frente da
casa do cantor. Eles chegaram a agredir verbalmente os
jornalistas, dizendo que Renato jamais aprovaria tal
assédio da imprensa.
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História
do cantor era de morte anunciada
Estado - 11/10/1996
ALEX
ANTUNES
Antes do fim de 83, um trio brasiliense começou a
aparecer em São Paulo, para tocar no Napalm e em outras
casas underground. Era a Legião Urbana, apenas mais uma
banda pós-punk - elétrica, direta, rápida, compacta,
barulhenta. E, no entanto, uma certa... intensidade?
sinceridade? credibilidade? já emanava dos caras, em
especial do feioso vocalista e baixista, um certo Renato
Russo (pseudônimo), com pendor para letras mais, eh,
literárias (sorry) do que a média. O povo das bandas
paulistas o seguia, espécie de fãs num ambiente onde
não os havia. Eu era um desses. Nos dez anos seguintes,
encontrei a Legião inúmeras vezes - o grupo de
popstars, eu como jornalista. Escrevi mil vezes sobre
eles; hoje, vendo a cara do Renato Russo na televisão,
só posso admitir que eu mesmo nunca entendi nada. Russo
congelado para sempre como uma espécie de enigma -
sempre próximo (como no começo), sempre distante (como
no final), ridiculamente transparente, rigorosamente
inexpugnável. A história de Renato Russo é a de uma
morte anunciada - nós o pegamos para Cristo (e como ele
gostou disso!). Outro dia, conversando com Skowa, ele
falava no "poder" do artista em cima de um
palco. Propus-lhe um ponto de vista diferente, o do vudu:
entre o galã e a fanzoca, quem é que recorta, fura e
prega a imagem de quem, no caderno ou na parede? Quem é
que se expõe nas luzes, quem é que esconde o rosto nas
sombras? Quem é que engole quem, quem é escravo de
quem? Renato Russo era escravo dessa idéia, dessa
história. Uma sensibilidade especial para o drama
pequeno e mortal, o foco menor e o mais intenso. Espelho
- Alguém anônimo o pára no corredor do Shopping da
Gávea e, agressivamente, pergunta: "Quem te deu o
direito de ficar espalhando o que acontece na minha vida
na tua música (Ainda É Cedo)?" Essa era a vida do
Russo, no espelho do espelho. Ele tentou quebrar o
encanto, assumindo o lado messias: em um único show, foi
capaz de discursar seguidamente contra a fraude nos
vestibulares, o serviço militar obrigatório, os
cambistas de ingressos e as eleições indiretas. Ou
então tentou assumir o entertainer: fez queimar fogos de
artifício ao som de Rhapsody In Blue, em outro ano, em
outra apresentação. Para o público, era a mesma coisa:
era ele!, Renato Russo. Só ele não sabia quem era, só
ele não aceitava o jogo (como Kurt Cobain). E ainda
esperava um gesto, um sinal do público anônimo, amorfo
e ensandecido (Russo quase causou uma catástrofe por
insistir em tocar em estádio sem impor o fosso entre o
palco e a platéia). Talvez tivesse escrúpulos demais
("Não vou fazer o equivalente sonoro das fotos de
Robert Mapplethorpe"), o outro nome para a covardia.
Talvez procurasse um sentido que simplesmente não existe
(organizava seus 2 mil discos por ordem... de
preferência!). Morreu enquanto dormíamos. Continuaremos
dormindo.
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Doente,
artista evitava aparecer em público
Estado - 11/10/1996
Desde que seu clipe de Strani Amori estreou na MTV que
Renato Russo vinha evitando aparições públicas. Nada
de fotos, releases ou declarações públicas. No
entanto, furou o silêncio em julho, em uma entrevista
publicada há poucas semanas no Zap!, por conta do
lançamento do mais recente disco da Legião Urbana, A
Tempestade ou O Livro dos Dias. "Gravamos 25
canções, mas daí nos tocamos da inviabilidade de, num
último disco de um contrato, lançar um álbum
duplo." Dessa forma, a banda cortou dez canções
já prontas, o que pode fazer com que os fãs esperem
para os próximos anos um novo álbum do trio. Apesar de
quase nunca se encontrarem fora dos estúdios, os três
integrantes do grupo tinham suas "formulinhas"
e compunham com aparente facilidade. Ainda há muitos
tapes inéditos das sessões dos outros discos também.
Violência - Não era segredo que Renato odiava se
apresentar em shows ao vivo, principalmente depois dos
problemas de violência na platéia durante a turnê de
As Quatro Estações, em 1989/1990. "A gente
percebeu que era impossível insistir naquela coisa de
`tocar de igual para igual' com o público, aquela coisa
de o público ser igual a gente." No entanto, Renato
achava que a questão da violência na platéia já
estivesse contornada, mas ainda havia coisas a ser
acertadas. "A gente pretende voltar a tocar, em
palcos altos e lugares grandes, assim que passar todos
esses meus problemas". Quais? Não quis revelar.
"Mas estou me tratando com meus remédios e fazendo
análise." Renato era um poço de obscurantismo,
monossilábico, que se protegia atrás de um falso ar
blasé. Tossia muito e interrompia a entrevista várias
vezes para que seu renitente soluço passasse. Aliás,
não tem uma pessoa que tenha encontrado Russo nos
últimos tempos que não o visse doente, gripado,
soluçante ou profundamente deprimido, o que intensificou
os boatos a respeito de seu estado de saúde. Russo era a
figura mais errática de sua geração, a do rock
brasileiro dos anos 80 e sua morte, ainda que
lamentável, não chega a ser surpresa para quem
acompanha os passos do cantor desde o começo. Renato
parecia acreditar (mesmo que sua lucidez o forçasse a
negar veementemente) na tradicional lenga-lenga sobre
"mártires" do rock. Heróis que partem em uma
infecção pulmonar, como ele, em uma overdose, como
Keith Moon, ou num suicídio, como Kurt Cobain, sempre
sabem que estão trocando suas vidas por um lugar na
história. Uma barganha não muito lucrativa, diga-se.
Cobain, por sinal, era um dos casos recentes que mais
perturbavam Renato. "O Nirvana está naquela
linhagem indispensável da história do rock, como Elvis,
os Beatles e o Sex Pistols", disse ele. "E eu
ficava muito aborrecido com aquele menino, porque eu me
via no lugar dele, vivendo a minha história",
contou, antes de concluir: "Eu tinha tudo para
morrer como ele."
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Corpo
será cremado
Estado - 10/10/1996
O cantor e compositor Renato Russo, de 36 anos,
vocalista da banda Legião Urbana, morreu à 1h15 da
madrugada desta sexta-feira em sua casa, em Ipanema, na
Zona Sul da cidade. Seu corpo será cremado neste
sábado, às 9h30m, no Cemitério São Francisco Xavier,
no Caju, na Zona Norte. De acordo com nota oficial
divulgada por integrantes do grupo, o cantor "morreu
em decorrência de problemas infecciosos
pulmonares". Parentes e amigos do cantor disseram
que Renato Russo estava deprimido havia vários dias,
recusando-se a comer e a sair de seu quarto. "Ele
estava muito triste e falava em morte até nas suas
músicas", disse Asmar Manfredini, tio do cantor.
Parentes e amigos de Renato Russo não confirmaram que o
cantor estivesse com Aids. "Está todo mundo falando
isso, mas é uma coisa que ele não falava", disse
Fernanda Villa-Lobos, mulher do guitarrista do Legião,
Dado Villa-Lobos. "Não cabe a mim comentar".
Ela afastou a hipótese de Renato Russo ter-se suicidado.
"Ele não teria coragem", afirmou. Segundo
Fernanda, o cantor estava anoréxico e anêmico. A prima
do cantor, Leisa do Espírito Santo Manfredini, também
negou que ele tenha se suicidado. "Ele estava com
pneumonia", disse. Suicídio - O boato de que o
cantor havia se matado circulou no Rio há três dias e
chegou a ser noticiado em algumas rádios. Informado
sobre o boato, o diretor artístico da EMI, João
Augusto, ligou imediatamente para a casa do cantor e teve
notícias de que ele estava bem. Fernanda contou que, na
ocasião, Dado Villa-Lobos foi à casa do parceiro para
saber o que havia acontecido. O guitarrista conversou com
o pai do cantor, o funcionário público Renato
Manfredini, e ficou preocupado com a situação do amigo.
Ele contou a Dado que seu filho não comia havia varios
dias e se recusava a sair do quarto. "Dado, então,
conversou com Renato, que chorou muito, demonstrando
estar realmente deprimido", contou Fernanda.
"Não sabíamos que a situação era tão
grave". A depressão profunda de Renato Russo é
confirmada por seus vizinhos, amigos e parentes.
"Ele andava muito triste", disse a prima Leisa.
"Há 15 dias ele andava cabisbaixo, triste e
deprimido", contou o vizinho e amigo do cantor,
Chico Guarani. O amigo lembrou ainda que quando estava
bem, Renato ouvia som em um volume muito alto. "Há
dois meses não se escuta música por aqui." Doença
- Uma equipe de enfermagem acompanhava o estado de saúde
de Renato Russo em casa, desde que ele começou a ter
crises de pneumonia. "Ele nunca quis se
hospitalizar", contou o tio do cantor, Asmar
Manfredini. De acordo com alguns vizinhos, Renato Russo
estava sendo submetido a um tratamento de
desintoxicação de drogas. O cantor já havia declarado
em entrevistas que era dependente de cocaína e
alcoólatra desde os 16 anos de idade. Na hora da morte,
Renato Russo estava no quarto de seu apartamento
conjugado, acompanhado de um enfermeiro e de seu pai, que
veio de Brasília há um mês para cuidar dele. A mãe do
cantor, Carmem Manfredini, chegou hoje de manhã à
cidade. Renato Russo deixa um filho, Giuliano Manfredini,
de 7 anos, que também está no Rio, na casa dos
bisavós, na Ilha do Governador. Diversos amigos do
cantor estiveram em seu apartamento, entre eles, a
vocalista do conjunto Sex Beatles, Chris Broun, o
fotógrafo Flávio Colker, que fez diversas capas do
disco da banda, e o ator Maurício Branco. Nenhum deles
quis comentar a morte do cantor. Diversos fãs de Renato
Russo fizeram vigília durante todo o dia em frente à
casa do cantor. Eles chegaram a agredir verbalmente os
jornalistas, dizendo que Renato jamais aprovaria tal
assédio da imprensa.
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Renato
Russo dá voz para sua geração
Estado - 15/12/1995
O trabalho do vocalista, letrista e compositor da
Legião Urbana supera a nostalgia dos anos 80
GABRIEL BASTOS JUNIOR
Adécada de 80 foi marcada pelo auge do rock brasileiro,
que entrou definitivamente para o universo da música
popular produzida no País. Muita coisa ficou para trás
e já é, em tão pouco tempo, motivo para nostalgia
(vide a volta com sucesso da Blitz). Do que ficou, um
nome se destaca como o letrista que melhor cantou essa
geração: Renato Russo, de 35 anos. Neste fim de ano,
ele se expõe de maneira dupla - em Equilíbrio Distante,
seu segundo disco solo, e na caixa com os seis discos de
estúdio da Legião Urbana remasterizados (nas lojas na
semana que vem), ambos pela EMI. O vocalista, letrista e
compositor da Legião, a banda de maior sucesso na
história do rock brasileiro, vive entre a conclamação
de público e classe artística e as alfinetadas da
imprensa, que o acusa de ultrapassado e até de
"rock mauricinho", o que explica o tempo que
ele passa em cada entrevista falando das sandices
escritas a seu respeito. Mas já é tempo de se admitir -
como fazem Lobão, Cássia Eller, Boca Livre, Marina e
tantos outros - que, como Cazuza, Russo é um nome
importante, com o mesmo peso para a sua geração que
têm Caetano e Gil para a anterior. Comparações
musicais são injustas, porque a proposta da Legião
nunca foi ter uma produção complexa, sofisticada ou
experimental nesse sentido. "Nossas música são
duas notas", ironiza o próprio Russo. Mas sua
capacidade lírica é incontestável quando se lê com
atenção Acrilic on Canvas, por exemplo, do elogiado
disco Dois. "Minha geração sempre foi tachada de
vazia e idiota", comenta. A chance de provar que
isso não era verdade sempre foi um incentivo para
escrever as coisas com cuidado. "Eu não podia fazer
uma besteira." Agora Renato Russo enfrenta o desafio
de mostrar que, embora seja um cantor intuitivo (sem
técnica), pode se sair bem como intérprete e produtor,
cuidando minuciosamente de todas as fases - até da
produção gráfica - de Equilíbrio Distante. Com esse
disco romântico, assumidamente brega e todo cantado em
italiano - com faixas que vão de Laura Pausini (leia
entrevista com a cantora na página 2) à versão de Como
uma Onda -, ele pretende experimentar o máximo da
absorção na cultura pop, sem misturar com o seu
trabalho na Legião, que está preparando novo disco.
Até lá vai se ouvir falar muito dele.
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Legião
Urbana prepara novo disco
Estado - 06/05/1996
Em estúdio desde janeiro, Renato Russo explica
como será o álbum da banda
MARINA DELLA VALLE
Especial para o Estado
Em time que está ganhando não se mexe. Essa máxima
popular pode ser aplicada ao grupo Legião Urbana. Em
estúdio desde janeiro, o vocalista Renato Russo, o
guitarrista Dado Villa-Lobos e o baterista Marcelo Bonfá
trabalham em seu novo disco, que deve ser batizado de A
Tempestade. De acordo com Russo, o álbum não apresenta
muitas inovações em relação aos outros trabalhos da
banda. A gravadora EMI-Odeon ainda não tem data marcada
para o lançamento, previsto para este ano. "É um
disco igualzinho aos outros, o mesmo Legião de
sempre", explica Russo. Ele define o novo trabalho
como uma mistura dos álbuns Dois (1986) com As Quatro
Estações (1989) e partes do que ele classifica como
"discos sérios", V (1991) e O Descobrimento do
Brasil (1994). Russo anuncia uma obra melancólica.
"Este foi um ano ruim", lamenta-se. "Perdi
meu namorado, tinha de ser assim." O grupo segue a
linha da crítica social e espiritualidade que vem
fazendo desde As Quatro Estações (1989), que alcançou
a marca de 870 mil cópias vendidas. A Tempestade deve
trazer canções sobre esperança. "A gente tenta
ser do bem e olhar para frente", diz Russo. A banda
não esquece a crítica social que deu o tom aos
primeiros álbuns. "Não posso dizer que todo mundo
está feliz na praia, dançando a dança da garrafa,
quando está tudo ruim."
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Legião
Urbana fala ao "Zap!" sobre sua volta
Estado - 25/09/96
Os integrantes da banda Legião Urbana, afastados dos
palcos e do público nos últimos três anos, estão de
volta ao contato com seus fãs. Eles falam com
exclusividade ao caderno Zap! e acabam de lançar o CD A
Tempestade. Brasília, a cidade desse grupo jovem,
continua presente nas letras das músicas. "O novo
CD está mais pop", explica Renato Russo, líder da
banda, que também insiste em sua visão pessimista da
atualidade. Russo aponta vários dramas ocorridos este
ano, entre os quais o acidente que matou os Mamonas
Assassinas. Zap!
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Legião
Urbana faz canções para jovens em crise
Estado - 24/09/96
Novo disco da banda, `A Tempestade', é manual de
educação sentimental repleto de clichês
JOTABÊ MEDEIROS
Convenhamos: os versos do Legião Urbana não são o que
costumamos chamar de "achados poéticos".
Observem: Não confunda ética com éter/Não façamos do
amor algo desonesto/Não se pode olhar pra trás sem
aprender alguma coisa pro futuro/Tem gente que não tem
nada e outros têm mais do que precisam. Todos esses
MaCclichês estão em Tempestade (EMI), o novo disco do
Legião, que é uma espécie de manual de educação
sentimental para teenagers com crises existenciais e
mesadas esporádicas. Renato Russo fala de como acha que
o teen deve proceder em assuntos de amor, trabalho,
amizade, lealdade, etc. Renato Russo, no entanto, não é
uma "má influência", no sentido
kierkegaardiano do termo. Nem é burro: fez o disco com
uma intenção clara e incluiu até um manifesto dessa
disposição, a canção Aloha, em que diz: A juventude
está sozinha/Não há ninguém para ajudar a
explicar/Por que o mundo/É esse desastre que aí
está." Daí, Russo se dispõe a explicar o mundo.
Ele tinha abandonado essa intenção desde que o acusaram
de messianismo, nos já distantes anos 80. Sua
determinação de dizer como o "órfão"
adolescente deveria se comportar tinha esmaecido quando
houve um quebra-costela monumental num show em Brasília,
os "órfãos" se comendo de pau. Mas Russo
voltou à carga em A Tempestade. O problema é que ele é
um professor que subestima os alunos. Seu CD é, também
em sonoridade, um disco que remete à Legião dos anos
80, os "anos teen" do rock nacional. Há
equivalentes sonoros bastante evidentes, como a canção
Dezesseis, que é um óbvio remake de Faroeste Caboclo,
desta vez tendo como personagem um James Dean tupiniquim.
O disco é muito ruim, para não ficarmos em eufemismos.
Os tecladinhos batidos de sempre conferem aquele som
pré-Smiths a canções-ladainhas (como o carro-chefe A
Via Láctea), didáticas ou catequizantes. Quando é
rock, é antediluviano, lembrando aquelas coisas a que
fomos submetidos nos anos dourados: Zero, Capital
Inicial, RPM. No mundo das hipóteses, sinceramente, é
até preferível que tenha sobrado Renato Russo ditando
regra do que o inferno que seria agüentar Paulo Ricardo
ou Guilherme Isnard ou Dinho Ouro Preto, se esses
tivessem sobrevivido. Renato Russo é um dos mais
interessantes artistas do rock nacional e é também um
dos mais obstinados. Quando faz discos-solo, como o
excepcional Stonewall Celebration, se supera e mostra que
tem referências. Com o Legião, alterna bons e maus
momentos, como esse Tempestade, mas não se pode dizer
nunca que seja incoerente.
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Renato
Russo encara o desafio de cantar com sinceridade e muita
qualidade
Estado - 16/12/95
Tanto no trabalho com o Legião Urbana quanto nos
álbuns solos, o músico, que gosta de cantar, procura
falar de relacionamentos, do universo humano, das
sensações e do que cada um tem dentro de si
GABRIEL BASTOS JUNIOR
Renato Russo tem fama de não gostar de dar
entrevista. É possível, já que ele sempre teve
problemas com a imprensa. Mas, quando começa a falar,
não falta nada: carreira solo, Legião, dependência
química, geração do rock de Brasília. Só não fala
do filho, Giuliano Manfredini, de 6 anos, autor dos
desenhos da capa de Equilíbrio Distante.
Caderno 2 - Com Equilíbrio Distante você está
encarando definitivamente o desafio de ser intérprete?
Renato Russo - O Legião tem uma concepção
fechada de trabalho. As canções e as letras têm certas
características que estão dentro desta concepção do
que a gente representa dentro do universo do
rock-and-roll e da música pop. E eu gosto muito de
cantar. Várias vezes, pela própria maneira que a gente
compõe, a letra é mais importante do que o canto.
Caderno 2 - Isso começou com o The Stonewall
Celebration.
Russo - O Stonewall foi uma primeira tentativa de
fazer algumas coisas minhas já que a Legião já estava
sedimentada. Depois de 10 anos, sem desmerecer o trabalho
principal, os membros de um grupo vão tendo outros
interesses e esse foi o meu. O Bonfá está trabalhando
com computação gráfica. O Dado tem o selo Rock It! O
que eu gosto mesmo é de música. É de cantar. Eu tinha
algumas outras opções, como escrever, trabalhar com
cinema, mas o que eu queria mesmo era continuar
trabalhando com música.
Caderno 2 - O disco tinha 50% da renda revertida
para a campanha do Betinho.
Russo - Ele nasceu da idéia de colaborar com a
campanha. E aproveitei para usar o disco como uma
espécie de exorcismo de um relacionamento que eu tinha
tido e não deu certo. E também para dar a minha marca
nos 25 anos da celebração de Stonewall, um marco na
questão dos direitos humanos em relação à
sexualidade.
Caderno 2 - Mas há outros interesses além do
canto...
Russo - Para mim entra no aspecto da produção.
Nesse novo disco eu pude trabalhar com outros músicos,
com outras convenções musicais. A grande brincadeira
dos discos solo é entrar mais pelo lado da mídia para
ver como a coisa funciona. Quero fazer várias
entrevistas, fazer Xuxa Hits. Acho que o trabalho permite
isso porque é um outro conteúdo. Não é a minha vida
que está ali na linha. Legião é uma coisa que o
público percebe como sendo além de música. Nos discos
solos estou fazendo só música.
Caderno 2 - E por que em italiano?
Russo - Gravar em outras línguas é simplesmente
para não confundir com o Legião Urbana. Eu até poderia
ter gravado em português, mas as pessoas iam achar que
era o novo disco do Legião ou que a Legião acabou. Nos
dois discos fica bem claro que é um trabalho separado.
Mesmo se eu cantasse standards de MPB, as pessoas iam
confundir.
Caderno 2 - Seu disco solo acabou adiando o novo
da Legião...
Russo - A Legião está lançando os seis
primeiros discos remasterizados em Londres, com uma
produção gráfica atualizada. Consertamos tudo. É do
interesse da gravadora porque grande parte das nossas
vendas foi feita em vinil e essa é uma maneira de
relançar tudo em CD. Fizemos dez anos em 1994. A gente
não acha muito tempo, mas todo mundo ficou cobrando uma
comemoração que resolvemos não fazer. Espero que isso
chame a atenção das pessoas para o que foi feito nesse
período.
Caderno 2 - A remasterização não tira a
espontaneidade, principalmente do primeiro disco?
Russo - Você vai ouvir todos os erros. É a mesma
mixagem, os mesmos arranjos. Mas o som vem menos velado.
Embora a gente não tenha mexido na mixagem, os discos
vêm com essa sonoridade mais atual, mais dentro dos
padrões da indústria nos anos 90.
Caderno 2 - Mas não significa deixar de lado o
novo disco.
Russo - A gente ainda não sabe qual vai ser o
perfil do disco. Mas já tenho algumas letras escritas e
temos muito material.
Caderno 2 - Mas o formato do Legião ainda te
agrada?
Russo - Se me agradasse completamente eu não
estava fazendo disco solo. Mas acho que o desafio é
você fazer uma coisa sincera e de qualidade dentro do
formato. É um formato fechado, mas é muito profundo. Eu
não vou fazer uma música como O Vira, dos Mamonas
Assassinas. Mas dentro da nossa concepção existem n
possibilidades, porque a gente fala de relacionamento, do
universo humano, das sensações, do que cada um tem
dentro de si. Isso para mim é uma coisa quase infinita.
Tem coisas que são da mesma linha. Bader Meinhoff Blues
no primeiro; no segundo tem Fábrica, ou mesmo Índios;
no terceiro tem Que País É Este e Mais do Mesmo; no
quarto tem Há Tempos; no quinto tem Teatro dos Vampiros,
que é mais suavezinha, mas é a mesma coisa; e, agora,
em Decobrimento do Brasil, você tem Perfeição. Eu
gostaria de acreditar que são músicas completmente
diferentes, mas se você parar para pensar, a gente está
falando da mesma coisa.
Caderno 2 - Como mudou sua relação com as
drogas. Você continua dependente?
Russo - Tenho dependência química, que é como
ser canhoto ou daltônico. Eu sou o que se chama
"dependente químico em recuperação". Eu
estou na programação desde 1992 e não uso mais nada
porque eu não posso. Comecei a beber com 17 anos. O
negócio só ficou pesado mesmo aos 28.
Caderno 2 - Mas não era apenas álcool...
Russo - Infelizmente a droga é um meio de
confraternização social. No meio artístico, quando
você faz sucesso, todo mundo oferece droga. E você vai
pegando porque o negócio é bom. De madrugada, no
estúdio, quando alguém faz uma presença, você vai
ficar no cafezinho? E comigo ainda tinha essa história
de romantizar. E o pior é que a coisa chega a um ponto
que é vergonhoso. Eu vi que a situação estava feia
quando começaram a dizer que eu armei cena em festa que
eu nem fui, só porque já era lugar-comum. É
completamente degradante e eu gosto de falar sobre isso
porque me dá força. Faz parte da programação lembrar
como era ruim. E o negócio é que não tem meio-termo.
Caderno 2 - O consumo ou não de drogas afeta a
criatividade?
Russo - Essa idéia de você estar calibrado ou
usar substâncias químicas de qualquer tipo aumenta a
inspiração não é verdade. Mas quando a pessoa bebe,
usa drogas e tudo o mais, ela naturalmente vai viver
certas experiências que a pessoa careta não vai. Eu me
metia nuns buracos, conhecia umas pessoas estranhas. Se
eu fico na Galeria Alaska até as 6 horas, vou ter uma
visão diferente de quem acorda cedo e pega sol. Algumas
pessoas acreditam que isso afete o trabalho, mas eu
acredito que não. A inspiração é uma coisa que não
dá para você forçar. Para mim geralmente vem quando eu
estou tentando dormir. Justo o contrário, quando eu
usava droga para tentar trabalhar, o resultado ficava
mais lento e disperso. Já teve vez que tomei ácido e
escrevi para caramba. Na hora você acha uma obra-prima,
mas no dia seguinte vê que não tem nada ali. Em geral
atrapalha tudo. Você usar alguma coisa durante a
mixagem, por exemplo, é um caos.
Caderno 2 - Mas você encaretou?
Russo - Já tenho uma boa bagagem de experiência,
não preciso sair por aí para conhecer o mundo. Já fiz
muita loucura. E certas coisas que eu romantizava, hoje
não acho mais maravilhosas. Tenho alguns amigos que
ainda glamourizam essas coisas. Gente que adora os filmes
do Jim Jarmusch. Até acho alguns interessantes, mas eu
não queria conhecer aquelas pessoas.
Caderno 2 - Que pessoas você quer conhecer hoje?
Russo - Acho interessante conhecer pessoas de
verdade. Quando eu trabalhava no Ministério da
Agricultura, por volta de 1982, sempre fazia trabalho de
campo. Eu era da Coordenadoria de Orientação e Defesa
ao Consumidor, que foi um dos primeiros órgãos do
gênero. Eu saía por aí vendo se os supermercados
estavam ligando os freezers, se os produtos estavam na
validade. Eu tinha de fazer "povo fala" - parar
as pessoas na rua e conversar, por exemplo, sobre o
preço do feijão. Era uma coisa fabulosa. Essas pessoas
me interessam. Agora, quem fica jogado na noite, drogado,
sem fazer nada de produtivo, não me interessa. O que eu
tinha em comum com essas pessoas era estar doidão. Hoje
não tenho mais nada.
Caderno 2 - Quando foi esse emprego? Antes da
Legião?
Russo - Nessa época eu era o Trovador Solitário.
Tinha brigado com o pessoal do Aborto Elétrico, porque
achava que eles não me davam valor. Então ficava
tocando umas músicas só com violão para abrir os shows
do pessoal. Foi nessa época que compus Eduardo e
Mônica, Faroeste Caboclo. Aí eu cansei e resolvi fazer
a Legião com o Bonfá.
Caderno 2 - O Dinho Ouro Preto, do Capital, era do
Aborto?
Russo - Não. Dinho era fã de Led Zeppelin. A
gente gostava de Siouxie and the Banshees, então era
proibido gostar de Led Zeppelin e ter cabelo comprido.
Até que um dia ele virou punk. Mas todo mundo fazia tudo
junto e o primeiro disco do Capital tinha várias
músicas que eles pegaram do Aborto Elétrico, porque o
Flávio (baixista) e o Fê (baterista) eram do Aborto. Eu
peguei uma parte e eles pegaram as músicas que o Flávio
fez a melodia, como Veraneio Vascaína.
Caderno 2 - E onde entrou a Legião nessa
história?
Russo - O Bonfá tocava em todas as bandas. Tocou
no XXX, no Dado e o Reino Animal, na Blitzz de Brasília,
nos Metralhas, no SLU. Eu fiquei só no Aborto Elétrico,
depois fui tocar violão e não sabia o que ia fazer. O
Dado na época estava tocando com o Dado e o Reino
Animal, mas ele não sabia tocar guitarra direito.
Caderno 2 - Como assim?
Russo - Não sabia mesmo. Ele teve de aprender a
tocar guitarra para tocar com a Legião. Em duas semanas
ele aprendeu a tocar nove músicas. No primeiro show a
gente tocou Ainda É Cedo e ele praticamente nunca tinha
visto uma guitarra. A gente ficava: "Faz
barulhinho." Daí é que saiu o solo. Até se tornar
uma coisa completamente zen e espetacular como pode ser
ouvido em Música para Acampamentos. O solo dele naquela
gravação ao vivo é fabuloso.
Caderno 2 - Mas a idéia da Legião...
Russo - A idéia, já que tinha tanta gente
tocando, era fazer um núcleo de baixo e bateria - eu e o
Bonfá - e chamar as pessoas para fazerem uma música.
Por isso a gente era a Legião Urbana. Só que é claro
que isso não deu certo porque não dava para organizar.
Caderno 2 - Dado não foi o primeiro.
Russo - Chamamos um carinha chamado Eduardo
Paraná. Ele era meio jazz-fusion, mas era bonitinho.
Tinha umas histórias engraçadas, porque ele solava o
tempo todo e dizia: "Eu não vou fazer barulhinho
porque as pessoas vão achar que eu não sei tocar."
E tinha um tecladista, o Paulo Paulista, que só entrou
na banda porque tinha um tecladinho. A gente não
aproveitou nenhuma das músicas que fez nessa época. Era
muito pop. Eu escolhia todos os meninos bonitinhos e via
se tinham um mínimo de talento musical. Tinha um menino
chamado Beto Pastel. Era um homem lindo, mas não sabia
tocar nada.
Caderno 2 - Vocês chegaram a se apresentar com
essa formação?
Russo - Uma das primeiras apresentações da gente
foi em Patos de Minas. A gente sempre mimeografava as
letras e um general pegou a letra de Música Urbana, que
falava "os PMs armados e as tropas de choque vomitam
música urbana". Só que a gente era supercomportado
no palco. Então eles acharam que quem tinha feito o
panfleto havia sido a Plebe Rude.
Caderno 2 - Quando foi a entrada de Dado?
Russo - Um dia o Paraná cansou de brigar com o
Bonfá e decidiu estudar regência e "levar música
a sério", como ele dizia. O Paulista tinha 16 anos,
mas parecia 30 e resolveu sair também. Nessa época
estava marcada a primeira grande apresentação das
bandas de Brasília, no auditório da Associação
Brasileira de Odontologia (ABO). Iam tocar as quatro
principais bandas combinadas em duplas: Plebe Rude,
Legião, XXX e Capital Inicial. Faltava um pouco mais de
um mês e a gente completamente sem guitarrista. Chamamos
o Ico Ouro Preto, irmão do Dinho, que tinha sido do
Aborto. No segundo ensaio ele desistiu. Aí já não
tinha ninguém bonitinho e a gente chamou o Dado. Ele foi
aprendendo e acho que hoje é um dos grandes guitarristas
porque tem estilo próprio.
Caderno 2 - O contrato com a EMI veio do show na
ABO?
Russo - Os nossos padrinhos eram os Paralamas
porque o Bi era amigo de todo mundo. Eles gravaram
Química e sempre tocavam nos shows. Foram eles que
apresentaram uma fita acústica minha, que eu fiz para o
Ico levar para a França, para o George Davidson, da
Odeon, que quis saber quem eu era. Só que nessa época
eu já estava com a Legião e eles não sabiam. Quando
nos viram, tomaram um susto porque era mais um trio de
Brasília com vocalista de óculos. Com o tempo acabou se
decidindo que era melhor eu só cantar e o Bonfá chamou
o Renato Rocha. Na época, eu já estava pensando no
disco. Ia se chamar Revoluções por Minuto e ia ter
London London.
Caderno 2 - Vocês foram a primeira banda a sair
direto em LP e fizeram sucesso de cara...
Russo - Na gravadora ninguém dava nada. Só que o
disco vendeu, na época, 50 mil cópias. Mas a grande
virada foi no Dois. Todo mundo esperava punk rock de
Brasília e a gente chega com uma balada de 5 minutos com
violão, voz e pandeiro, falando de um casal (Eduardo e
Mônica). Quiseram derrubar, mas como já tinham errado
na primeira vez, a gente insistiu em fazer do nosso
jeito. E o disco vendeu quase 1 milhão de cópias. Nosso
primeiro contrato era para dois compactos. Depois que a
gente fez sucesso, passou a ser dois LPs. Contrato de
gravadora é que nem Fausto assinando com Mefistófeles:
uma vírgula pode mudar tudo. Agora que o nosso contrato
está acabando eles estão tratando a gente a
pão-de-ló. Este ano nós vendemos 150 mil discos só
com material de catálogo.
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Rock é
uma atitude, não é moda
Estado - 15/12/1995
O músico escreveu texto em 1983 para panfleto de show
de bandas em Brasília Os componentes dos quatro
conjuntos fazem parte do que era conhecido como "a
turma da colina da UnB", isso por volta de 1977,
época da abertura e da redemocratização (embora a UnB
ainda apresentasse alguns problemas). Um maço do
Hollywood estava por volta de Cr$ 15,00 e na cidade não
existia nada para se fazer. Mas aparece então o que iria
acabar de vez com a pouca identidade que a capital tinha
com a música discoteca. Brasília deixa de ser Brasília
e passa a ser Rio de Janeiro, como o País inteiro. Para
quem gostava de rock, essa foi o fim. Basta ser chamado
de colonizado o tempo todo; com a moda disco a situação
piora sensivelmente. Ainda mais porque na mesma época
aparece um movimento original e anárquico que pretende
acabar com os falsos modismos. É a moda levada ao
extremo: anti-moda, anti-estética, anti- tudo. Mas aqui
é bem mais fácil controlar a juventude oferecendo a
válvula de escape ideal e não uma música que faça
todos pensarem e questionarem as hipocrisias construtivas
de uma sociedade falsa, à beira da autodestruição
atômica. Ha-ha. Música discoteca não fala desse feito.
E a MPB parece estar mais preocupada com cama e mesa e a
sensação das cordilheiras. E o pessoal que faz letras
espertas não gosta de tocar rock no Brasil. O que fazer?
Será que estão todos satisfeitos? Rock é uma atitude,
não é moda. É música da África. Não é música
americana. Tem no mundo inteiro. Texto escrito por Renato
Russo em abril de 1983 para o primeiro grande show
reunindo as quatro principais bandas de Brasília:
Legião Urbana, Plebe Rude, Capital Inicial e XXX.
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Nos
shows, emoção é o que importa
Estado - 15/12/1995
Renato Russo valoriza a mensagem, o que está sendo
dito, mas também a maneira como tudo está sendo dito, a
emoção, que pode ser usada com inteligência e
sensibilidade
GABRIEL BASTOS JUNIOR
Com o tempo, veio o sucesso retumbante. Faroeste
Caboclo ficou vários meses em primeiro lugar nas
principais FMs. O disco Quatro Estações foi demolidor e
o ao vivo, Música para Acampamentos, registrou a força
dos shows. A imagem estava construída. O cuidado agora
tinha de ser para mantê-la.
Desde um comentadíssimo tumulto em um show da banda
em Brasília, em 1988, Renato Russo e a Legião Urbana
evitam ao máximo a superexposição e, sempre que podem,
ficam o maior tempo possível sem trabalhar - nada de
shows, nada de entrevistas e alguma dor de cabeça para o
empresário do grupo, Rafael Borges. "Ele é o
máximo porque administra o nosso não-trabalhar",
comenta Renato Russo.
Caderno 2 - Você hoje admite que não gosta de
fazer show.
Renato Russo - Já gostei muito. Agora tenho meu
pé atrás porque sei quais são as dificuldades que eu
vou enfrentar e o que pode ocorrer. Acho que a marca foi
aquele show em Brasília. A gente começou a perceber que
existem muitas coisas envolvidas que podem não dar
certo. Então a responsabilidade é muito maior e a
pressão também. Mesmo quando o show dá certo, tem
aquele engarrafamento monstro. Antigamente a gente não
pensava nisso.
Caderno 2 - O que mudou?
Russo - Comecei a pensar nisso quando tive filho.
A gente fica medroso quando tem filho. Não é medo de
acontecer alguma coisa comigo, mas de acontecer alguma
coisa comigo que afete meu filho.
Caderno 2 - Mas quando começa o show você se
transforma...
Russo - Não tem uma transformação. Eu subo no
palco para cantar as músicas. Sei que é uma bobagem
dizer isso, mas para mim o palco é sagrado. O que
dificulta é a expectativa do público e a nossa
responsabilidade. E ter de cantar as mesmas músicas
sempre. Não tem um show em que a gente não cantou
Será. Você tem de passar por cima de um tédio
existencial que tem com o material e cantar Será como se
fosse a primeira vez. Isso desgasta.
Caderno 2 - Você também não se sente desgastado
por se expor muito às suas músicas? E tem também a
questão do canto, da voz mesmo...
Russo - São músicas difíceis de cantar para
passar a mensagem. Há Tempos começa tranqüila, no
final eu estou me esgoelando. Mas, quando você vê
aquele bando de gente cantando "há tempos são os
jovens que adoecem", não tem como não se
emocionar.
Caderno 2 - E tem o som...
Russo - É muito desgastante se preparar para
fazer um show legal e na hora encontrar um som ruim. E o
som em todo lugar é ruim porque a gente não pode tocar
em lugar pequeno. A gente tenta equacionar essas coisas
para que tudo dê certo porque não há nada melhor do
que um bom show. Lava a alma mesmo.
Caderno 2 - Essa impossibilidade de controlar tudo
é que afasta vocês também dos festivais?
Russo - A gente é o tipo de banda que reclama se
tiver um outdoor da Coca-Cola no show. A turnê do As
Quatro Estações foi patrocinada pela Lacta porque a
gente achou que chocolate era tudo bem. Mas, mesmo assim,
tinha um monte de regrinhas. Isso dificulta as coisas
para a gente, mas se fosse de outra forma talvez
perdêssemos essa coisa especial que a banda tem. Eu
estou lá falando de ética, sofrendo, é o cantor
trágico-romântico suicida e dependente químico. O
público não vai respeitar.
Caderno 2 - A relação da Legião com o público
é maior que a música...
Russo - Eles têm um perfil que eu acho muito
bonito. São pessoas que não são racistas, não são
fascistas, que buscam uma determinada ética frente ao
mundo complicado que têm. Fico feliz de tentar trabalhar
com o que acredito e o que acredito passar na música.
Não existe confusão.
Caderno 2 - A mensagem é o principal no trabalho
da Legião?
Russo - O importante para mim não é o que está
sendo dito, mas como está sendo dito. O importante é
que as pessoas conseguem se emocionar com a Legião. A
coisa que eu mais invejo é você fazer You Are Not
Alone, do Michael Jackson. É muito difícil. Você pegar
frases de cinco palavras, aquelas rimas pobres e
vocabulário batido e fazer algo que emocione as pessoas
é complicado. É muito fácil ser Nick Cave. Se não
passar emoção, não tem texto que segure. Eu vejo isso
pelo trabalho do Caetano. Você pega uma coisa como
Língua. Sinto muito, mas sou mais Leãozinho. Existe uma
maneira de você usar a emoção com inteligência e
sensibilidade.
Caderno 2 - É nesse espaço que você trabalha?
Russo - Eu gosto de brincar com o limite disso. É
o tal do brega, que eu falo. No Descobrimento do Brasil,
a gente brincou com muitas coisas, só que ninguém
percebeu. Tem músicas como Só por Hoje. Aquilo é show
da Xuxa com a diferença que eu falo de dependência
química. Você se emocionar com Dumbo é diferente de
achar Mirnau ou Fassbinder o máximo.
Caderno 2 - Mas o público de vocês se aproxima
mais da MPB...
Russo - Sempre tive essa teoria - e é um crime eu
falar isso. O povo que conhece MPB, gosta de MPB e só
ouve MPB, que tem uma relação religiosa com a MPB,
geralmente são pessoas chatinhas. Tem umas músicas
emblemáticas de rodas de violão que eu acho muito
chatas.
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Frase
Estado - 16/12/1995
"Contrato de gravadora é que nem Fausto
assinando com Mefistófeles: uma vírgula pode mudar
tudo."
(Renato Russo, cantor e compositor, em 16/12)
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O Anjo
Regenerado
Revista da Folha- Outubro de 1994
Rock star mais idolatrado do Brasil,
o cantor e compositor Renato Russo deixa o inferno,
atinge o purgatório e busca o paraíso. Rompeu com o
vício e com as brigas de amor. De namorado novo e disco
solo, avisa a legião de fãs: "Chega de glorificar
a relação entre drogas e rock"
Hoje à noite, Renato Russo sobe ao palco do
Metropolitan, no Rio, para o último show da Legião
Urbana por um longo tempo. A partir de amanhã, ele troca
o furor do público pela frieza do estúdio - onde se
entrega às composições que os fãs do grupo só vão
conhecer em 95. Nesse meio tempo, será possível ouvir
sua voz entre uma tramóia e outra de Vera Fischer, a
malvada do folhetim de Gilberto Braga. Foi o prório
Gilberto quem escolheu "Send In The Clows" - do
primeiro disco solo do vocalista, "The Stonewall
Celebration Concert"- para a trilha de"Pátria
Minha". Reconhecimento tardio (mas bem-vindo) de um
trabalho até então ignorado por rádio e TV.
94 foi um grande ano para Renato Russo. Sentado
numa lanchonete a algumas quadras da sua casa, em
Ipanema, ele é todo sorrisos. Voz doce, revela detalhes
de sua carreira ou vida íntima, lembra dos flertes com a
morte. O maior motivo da alegria: neste ano, o mais amado
rock star brasileiro emergiu de um inferno regado`a
álcool e drogas.
"Eu era uma pessoa intratável", diz,
com o resto de tristeza. "Até meses atrás, não
era possível falar comigo." Agora é: durante três
horas, ele discorre animadamente sobre o disco solo, o
filho, paixão, homossexualismo, Aids, messianismo,
drogas e rock'n'roll.
Dá para dividir a história de Renato entre
antes e depois do disco solo (lançado em junho). Foi um
marco. Sinalizou o fim da paixão pelo americano Scott,
com quem viveu entre 89 e 90. Escancarou sua
homessexualidade ( assumida em público em 88), com
canções de amor endereçadas a homens. E abriu outra
perspectiva em sua carreira - a de Renato Russo
"crooner".
"Escolhi canções que falassem da minha
experiência pessoal", conta Renato. Ele não teve
escrúpulos em reunir no mesmo disco clássicos da
canção norte-americana (de Leonard Bernstein &
Stephen Sondhein, Hoagy Carmichael e Irving Berlin, entre
outros) e hits de compositores brega-pop, como Billy Joel
e Don Henley. Os detratores de plantão se surpreenderam:
em lugar da esperada caricatura, encontraram um trabalho
despretencioso e delicado - que alterna momentos de dor
(como "The Heart Of Matter") com tiradas
alegres ("Cherish", antigo hit de Madonna).
Até agora, o disco vendeu 40 mil cópias, com um
detalhe: 50% dos direitos são doados à campanha do
sociólogo Betinho.
Para Renato, porém, esse disco tem um
significado bem particular. É o seu manifesto de
sobrevivência, o passo final num processo de
recuperação iniciado um ano antes. "No começo de
93, eu tinha chegado ao fundo do poço. "Eu estava
igualzinho ao Kurt Cobain", diz, referindo-se ao
vocalista do Nirvana, dependente de heroína, que se
matou com um tiro na cabeça em abril.
"Dizem que ele foi covarde. As pessoas
não têm idéia do que é o sofrimento de um dependente
químico. É um vazio espiritual! Eu sei o que é acordar
e ver tudo cinza, não ver alegria nas pessoas que te
amam, tamanha é sua solidão."
Renato estava nessa desde os 17. "A coisa
vai num crescendo. Depois que você faz sucesso, todos te
oferecem, aparecem os traficantes de plantão.
Experimentei tudo, mas sempre terminava em álcool e
tranquilizantes. No bar e na farmácia."
Em 90, no auge da popularidade da Legião (870
mil cópias vendidas de "Quatro Estações",
shows com 50 mil pessoas), Renato foi ao inferno pela
primeira vez. "Na época de "Quatro
Estações", eu ia para os shows com um médico ao
lado. Peguei pesado com o Scott, porque ele era viciado
em anfetaminas. Depois, caí na heroína. Usei durante um
mês e meio. No final de 90, estava um bagaço,
magérrimo, cadavérico. Tive uma hepatite séria e quase
morri."
A doença e a briga com o namorado -
traumática - o levaram a procurar uma terapia de apoio.
Ficou bem o suficiente para escrever as letras do disco
"V" (várias delas sobre drogas). Na turnê
seguinte, em 91, outra recaída. "Cancelamos os
shows no Nordeste porque eu estava bebendo de cair, com
tendências suicidas. "No começo de 93, suas
bebedeiras foram parar nos jornais. "No meu
aniversário, 23 de março, pensando no meu filho, em
mim, vi que não podia continuar assim."
Em abril daquele ano, Renato ingressou em um
grupo de auto-ajuda e passou a seguir a
"programação dos 12 passos", espécie de
manual do viciado. Reza que a pessoa deve reconhecer a
impotência diante da dependência química e se
comprometer a lutar dia-a dia. "Hoje, essa é a
minha filosofia de vida".
Ficar careta tem suas vantagens. O rapaz está
de amor novo. "Eu nunca conseguia namorado. Agora,
está chovendo na minha horta", diz. Empolgado, dá
um sorriso maroto e imita uma velhinha: "Sabia que
ele é viado? Mas é bonzinho! É inteligente até,
limpinho...".
Renato solta uma gargalhada. Esse tipo de coisa
não incomoda mais. "Resolvi minhas últimas
dúvidas quando fui aos EUA em 89. No Brasil, ou você é
enrustido e pega michê ou travesti, ou é
bicha-discoteca. Não sou nada disso". Em Nova York,
descobriu que não precisava "desmunhecar".
"Gay lá pode ser macho. Eles são setorizados:
musculosos, sadomasoquistas, loucos...".
No Brasil, a revelação de que ele era gay,
ainda em 88, não arranhou sua popularidade.
Fidelíssimo, o público da Legião cantou sem titubear o
refrão "eu gosto de meninos e meninas".
Era, na verdade, o ingrediente
que faltava para completar a improvável receita do grupo
de Brasília - o mais bem - sucedido no
"boom"do rock nacional. Em retrospecto, é
difícil entender como aquela banda de letras
quilométricas e desprovida de um símbolo sexual como
Paulo Ricardo chegou ao topo. Ou como manteve-se no alto:
o disco mais recente, "Descobrimento do Brasil"
está na marca de 250 mil cópias vendidas.
Pais e filhos
Nome: Renato Manfredini Junior
Apelido: Junior
Data e local do nascimento: 23/03/60, Rio
de Janeiro
Mãe e Pai: Maria do Carmo e Renato
Irmãos: uma, Carmem Teresa Manfredini
Filho: Giuliano Manfredini, 5 anos
Signo: Áries
Formação: Jornalismo, em DF
Altura e Peso: 1,74m, 65 Kg
Perfeição
Algo no corpo o incomoda? "Minha
saúde. Foram 15 anos de droga- adicção".
Parte do corpo de que mais gosta:
"Cérebro. E também adoro as minhas mãos".
Cuidados com o corpo: "No momento,
manter-me longe do alcoolismo já é um milagre".
A que horas dorme e acorda: "Vou
dormir às sete da manhã e acordo meio-dia. De dia, não
faço nada, porque o mundo está acontecendo".
Propriedades: "Só o meu
apartamento".
Meninos e Meninas
Símbolo sexual: "O Leonardo, da
seleção. Eu acho ele um gatinho".
Primeiro beijo: "Aos 9 anos, com a
minha namorada nos EUA. Achei a coisa mais nojenta".
Primeira transa: "Foi num carro, aos
17"
Lugar mais esquesito onde fez amor: "Embaixo
do telhado, no vão da caixa d'água"
Melhor lugar para fazer amor: "Um
lugar onde a gente se sinta mais seguro".
Fantasia não- realizada: "Ganhar o
Oscar".
Homens são: "Bobos, que nem
cachorro".
Mulheres são: "Misteriosas que nem
gato".
O que te seduz?: "Espírito, bondade,
desejo".
O que te broxa?: "Estupidez,
pretensão".
Melhor cantada: "Do Scott, em Nova
York, num bar gay. Vi aquele menino loirinho, cara de
estivador, vindo na minha direção! Pedi um cigarro, ele
disse: Não!. Saiu. Voltou com um maço novinho pra mim.
Ficamos juntos dois anos".
Pior cantada: "Gosta de mulher mas
também gosto de viado! Vá a merda!".
Última pessoa que levaria para cama:
"Paulo Francis"
Quase sem querer
Maior maldade que já fez: "Não
admitir que as pessoas se preocupavam comigo".
Maior mentira que já contou: "Só
mentiras bobas. Aqui, eu não falei toda a verdade".
Arrependimento: "Não conhecer a
programação dos doze passos na época do Scott".
Todas as canções
Palavra preferida: "Essência".
Palavra que mais usa: "Eu".
Canção: "I Get Along Without You
Very Well"
Compositor preferido: "Bob
Dylan".
Livro: "Sonetos, Shakespeare".
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