Legião Urbana Uma Outra Estação
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NUNCA FUI SANTO
(Revista ISTO É, 27/04/94)

 O músico Renato Russo se diz homossexual, conta que largou  as drogas e critica a imprensa que glorificou a dor do roqueiro Kurt Cobain

Há dez anos eles surgiram no Planalto Central e conquistaram os adolescentes de todo o País, cantando músicas que se tornaram hinos de uma geração, Não havia rádio que não tocasse sem parar o refrão "Somos os filhos da revolução/somos burgueses sem religião/somos o futuro da nação/geração Coca-Cola". Seis discos depois e 33 milhões de cópias vendidas, o Legião Urbana - sem o baixista Renato Rocha, que abandonou o grupo depois do terceiro álbum - continua arrebatando corações adolescentes. O maior responsável por isso é o líder da banda, o letrista e vocalista Renato Russo, nascido Renato Manfredini Jr., há 34 anos, no Rio de janeiro. Ex-professor de Inglês, ex-jornalista, Renato Russo é um personagem polêmico: já foi acusado de ter incitado o público a depredar o Estádio Mané Garrincha, em Brasília, em 1988, já desmaiou num palco em Belo Horizonte, em 1990, e já foi expulso por seguranças quando tentava, embriagado, entrar no camarim do grupo Emerson, Lake & Palmer, em 1993, no Rio. Mas nenhum desses episódios é capaz de ofuscar o talento nem aplacar a coragem de Renato,  principalmente quando defende abertamente bandeiras ainda tão difíceis no Brasil, como o homossexualismo. Pai de Giuliano, um menino de cinco anos, Renato abre o jogo nesta entrevista a ISTO É:  conta a sua luta contra o alcoolismo, critica duramente a imprensa, responsável pela "glamourização excessiva do rock"; e fala sobre o disco solo, só com músicos em inglês, que deverá ser lançado em junho. O álbum terá 21 músicas e vão de Bob Dylan a lrving Berlin, de Cole Porter a Madonna. É uma homenagem pessoal de Renato aos 25 anos de Stone Wall, o bar de Nova York onde gays americanos pela primeira vez enfrentaram a polícia em defesa de seus direitos. O dinheiro arrecadado com as vendas do álbum será revertido para a campanha do Betinho.

 

ISTO É - O Sr. acaba de gravar um disco sem o Legião Urbana. Seria o início de uma carreira solo?.

Renato Russo - Não estou lançando uma carreira solo. Este disco foi feito especificamente para a campanha do Betinho e para comemorar os 25 anos do concerto de Stone Wall. Eu tenho ficado assustado com a irresponsabilidade da imprensa no Brasil que tem veiculado certas notícias como esta. Existe uma rixa entre os cadernos culturais do Rio que é uma coisa perniciosa, improdutiva e prejudicial ao leitor. É uma mentalidade medíocre, uma coisa ressentida. Acho que se algumas pessoas não gostam do Brasil e querem estarem Nova York, devem ir para lá. Mas não, ficam escrevendo sobre os clubbers de Manchester ou que a droga da moda é essa ou aquela. Quer coisa mais irresponsável do que esta, quando temos no Rio de Janeiro famílias inteiras morrendo por causa do tráfico de drogas? Agora, o Kurt Cobain se matando no palco, dando um vexame - qualquer pessoa normal via que aquele rapaz estava sofrendo -, os jornais vão lá e dão nota dez, porque é um grande show de rock 'n 'roll. Essas pessoas precisam ter suas cabeças examinadas. Como não quero criar polêmica, preferi fazer um disco. Escolhi fazer um disco só com canções em inglês para não confundir com o trabalho do Legião. São canções de amor, eu cantando para um outro cara.

 

ISTO É -  Quando e como foi que o sr. resolveu assumir publicamente sua homossexualidade?

Russo - Foi em 1988. Faço parte uma minoria, que não é tão minoria assim, ainda mais neste país. Me considero pansexual, mas sou o que as pessoas chamariam de  homossexual. O que acontece nesse país é o seguinte: se você tem uma postura de homem, você não é considerado homossexual. Chegam pessoas para mim e dizem [com a voz afetada] "não Renato, você não é gay, você não desmunheca". Tá bom. Desde quando eu preciso botar uma peruca e sair rebolando? Isso porque somos uma sociedade católica, machista e falocrata. Tenho amigos muito educados que são heterossexuais mesmo, casados, mas todo mundo acha que eles são bichas. Mas conheço um monte desses garotões fortões que nunca ninguém vai dizer que é. Mas são. Então, isso faz parte da minha vida. Não é um problema. É importante falar sobre isso. Se eu fizesse parte de outra minoria e se existissem coisas que me incomodassem, acho que, tendo a posição de artista, eu falaria. Não é para ser politicamente correto ou para chama atenção. Já tive namorada, já tive filho, mas gosto de hoje poder cantar uma música de Bob Dylan dizendo "lf you see him" em vez de "If you see her" ("Se você o vir" em vez de "Se você a vir")

 

ISTOÉ - Poderia falar mais sobre seus relacionamentos?

Renato Russo - Saí agora de um relacionamento de dois anos que mexeu profundamente comigo. Acho que vou ficar uns dez anos escrevendo músicas de amor, do tipo "meu amor partiu". Por isso, resolvi fazer o que sei: cantar e lançar um disco. É a maneira que eu tenho para lutar contra o fascismo, que está voltando. Minha participação é ser um exemplo. Quanto mais gente perceber que as pessoas podem ter uma orientação sexual diferente da norma - e por serem diferente; da norma não são anormais ou doentias - e que podem ter uma vida digna, estou satisfeito. [Engrossa a voz] Cara, eu me considero muito macho, entendeu? Tenho 34 anos, casa própria, sou super-responsável, cumpro meus compromissos, não roubo, não minto, não mato e tenho amigos que me dão força. Tenho meus defeitos também, porque não sou santo, mas participo ativamente da vida de meu país. Para mim, ser homem não é sair dando portada nas pessoas, como ser mulher não é ser submissa, ficar em casa segurando o chinelinho para o marido. É preciso parar com o sexismo e ver que aquilo que existe é a dignidade do ser humano.

 

ISTO É - O sr. tem medo da Aids? Como lida com ela?

Renato Russo - Uso camisinha direto desde 1986. Qualquer pessoa que tem vida sexual ativa está no grupo de risco.

 

ISTO É - O Legião Urbana já passou por diversas fases desde a sua criação. Como o sr. vê a banda hoje?

Renato Russo - Por sorte e também por causa do nosso trabalho, nós conseguimos continuar numa posição de destaque dentro da linha que seguimos. Depois de dez anos, nosso trahalho continua sendo bem aceito pelo público. O primeiro disco continua atual. Dentro do que é o trabalho do Legião Urbana, não existe muito espaço para maiores novidades, principalmente porque nós falamos de nossas vidas e não existe muita novidade nelas. O que existe é uma certa maturidade. Eu não sou mais adolescente. Tenho 34 anos, o Bonfá e o Dado estão com 30. Isso significa que temos filhos e outras responsabilidades. Eu não fico mais em casa ouvindo rock'n'roli sentado no chão com meus amigos.

 

ISTO É - Quando afirma que não existe mais espaço para muitas novidades, o sr. está de alguma forma admitindo que o Legião pode estar sendo repetitivo? O sr. tem esse receio?

Renato Russo - Não, porque nós somos muito talentosos. Se fosse para ser repetitivo, já no primeiro disco a gente teria músicas repetitivas. A questão não é esta. O que existe é uma tentativa de ser o mais variado possível dentro de uma situação que permanece a mesma. No caso, em se tratando da questão social do País, a situação nem é a mesma; está pior. Quando o Legião Urbana começou eu tinha 20 e poucos anos e acreditava em coisas que não acredito mais. Hoje acredito mais na mudança interior das pessoas.

 

ISTO É - Até cinco anos atrás, essa geração do chamado rock Brasil, que inclui Legião Urbana, Paralamas do Sucesso e Titãs, tinham muito mais força e projeção. O que mudou?

Renato Russo - Acho que mudou o público. O público que tinha 20 anos hoje tem 30. E a gente está falando de rock. O Legião tem um público de pessoas muito novas. Nunca seguimos uma moda. Não fazemos rock porque é moda. Pode ser que tenha passado um momento, que foi o da descoberta pela imprensa, de empatia e de grandes shows. Mas eu não gosto de fazer grandes shows. Não me satisfaz. Interfere na minha privacidade, em como me vejo como artista e cidadão. Também não fazemos televisão, mas  continuamos tocando. Pode ser que não estejamos na lista dos dez primeiros, mas estamos entre os 20. Com vendas é a mesma coisa. O rock é isso: atingir o coração das pessoas, não é anúncio de iogurte.

 

ISTO E  - Há toda uma geração de músicos cinquentões no Brasil e no Exterior

que continua fazendo grande sucesso e ocupando amplo espaço na mídia. Falta

renovação?

Renato Russo - ISSO é uma questão de talento e maturidade. Esse pessoal conseguiu sobreviver aos anos 60. Eles têm uma força muito especial. Música não tem idade. E as pessoas esquecem de uma coisa fundamental: essa geração, que hoje está com 30 anos, foi a primeira, depois da abertura dos anos 60, a entrar em todas as áreas. O pessoal de publicidade, teatro, cinema, poesia, vídeo, alguns jornalistas. Antes da geração do Chico, Caetano e Eric Clapton isso não existia. O que temos hoje é que muitas pessoas estão indo por outras áreas, inclusive para uma participação política. Os anos 60 foram uma época especial. É a mesma coisa que dizer que depois dos anos 40 não apareceu mais nenhum grande compositor clássico. Claro que não. Por quê? Não sei. O Chico e o Caetano continuam tão atuais quanto antes. Acho maravilhoso que volte a haver um respeito pelos nossos maiores artistas no campo da música.

 

ISTOÉ - O sr. acha que aos 50 anos ainda estará compondo e fazendo sucesso?

Renato Russo - Não sei. Não sei nem mesmo o que vou estar fazendo daqui a três dias.

 

ISTOÉ - Uma pesquisa recente mostra que o universitário do Rio de Janeiro não tem o hábito de ler. Os jovens são mais alienados hoje do que há dez anos quando surgiu o Legião Urbana?

Renato Russo - O jovem é jovem desde que o mundo é mundo. O que eu acho um crime é a falta de perspectiva; para o jovem no Brasil. Acho que se o jovem é alienado hoje, é porque é burro. Atualmente existe muito mais informação.

 

ISTO É - As drogas são uma presença constante no mundo do rock. A vítima mais recente foi o Kurt Cobain, líder do Nirvana, que se suicidou. Como o sr. vê essa conexão?

Renato Russo - Acho que a droga é uma coisa presente em todo o mundo, só que a dona de casa que toma bolinhas não sobe ao palco para fazer show. Assim como o motorista de ônibus que todos os dias sai do trabalho e vai tomar uma cervejinha com os amigos. É exatamente a mesma coisa. O que acontece no rock é que existe uma glorificação e uma glamourização desse tipo de comportamento, porque por algum motivo se acha que isso é uma coisa irreverente, rebelde e ligada à adolescência. Os artistas estão mais expostos. Chama muito mais atenção um Kurt Cobain morrer do que aquele vizinho seu prédio que morreu de cirrose. A glamourização do rock parte da imprensa.

 

ISTO É - Não acha que essa glamourização faz parte do próprio mundo do rock?

Renato Russo - O Paul Mccartney disse certa vez: "Eu tomo LSD, mas quem está fazendo o maior escarcéu são vocês da imprensa." Se o pessoal vai para o clube e toma Ecstasy, isso é com ele mas se sai uma página inteira de jornal dizendo que a juventude inglesa está fazendo isso e que isso é bacana de se fazer, não me venham depois botar a culpa no rock'n'roll. Ficam vendo o cara se destruindo no palco e acham maravilhoso. Eu não acho maravilhoso a Janis Joplin sozinha num quarto, saindo para comprar heroína, caindo, quebrando a cara na escada e morrendo. Não acho legal Jimmi Hendrix, o maior guitarrista de todos os tempos, lá, sufocado no próprio vômito. Vem alguém e diz "isso é rock'n'roll". Para mim, isso é burrice. Nunca vi U2, Dire Straits, Sting, Morrisey e tantos outros glamourizarem o uso de drogas. Existem milhões de artistas, mas vai todo mundo ficar falando do Kurt Cobain. Existe uma coisa mórbida que é as pessoas quererem que os artistas sejam sacrificados em seu lugar. É uma espécie de expurgo. A maior decepção é quando um Lou Reed sobrevive, ou Eric Clapton ou Keith Richards. Morrem os 10% que são dependentes químicos. O alcoolismo é uma dependência química e isso é uma doença primária, crônica, incurável e fatal. Sempre termina em morte. É uma pena. O Cobain era extremamente talentoso. Mas e aí? Não vai mais ter disco do Nirvana, sinto muito.

 

ISTO É - Como foi que o sr, começou a tomar drogas?

Renato Russo - Isso é pergunta que se faça, ô cara? Foi tomando uma cachacinha numa mesa de bar, está bom assim?

 

ISTO É - Como é sua relação com as drogas e o álcool? O sr. é viciado?

Renato Russo - Não. Eu não posso tomar drogas. Sou alcoólatra e dependente químico. Freqüento um grupo de apoio, de auto-ajuda, de pessoas que têm o mesmo problema, que se reúnem para se dar força. Estou seguindo a programação dos 12 passos, que não tem nada a ver cora religião, mas é uma coisa espiritual. A programação faz com que você tome uma consciência espiritual sem necessitar do álcool. Não sei dizer se viciado é a palavra certa. Eu sou dependente químico. Usei drogas durante 15 anos, lícitas e ilícitas. Isso é uma coisa da qual eu não me orgulho, mas acredito nessa coisa do poder superior: eu vim para cá assim, né? É uma coisa que tinha que acontecer. Eu dou graças a Deus, porque hoje estou bem. Mas cheguei num ponto parecido com o do nosso amigo Cobain.

 

ISTO É - O sr. já tentou se suicidar?

Renato Russo - Não, mas meu plano era ir até... A doença te domina de tal maneira que você pensa que é daquele jeito, mas na verdade não é. É como uma depressão. Você não consegue sair daquilo, vai usando isso, aquilo e, de repente, o mundo vai fechando. Você fica agressivo sem perceber. Tudo é cinza. Você não consegue ver nada de positivo. E a vida não é nem boa nem ruim: a vida é o que a gente faz da vida, mas, é claro, se você vive entupindo seu corpo com toxinas... No começo é até interessante. É o que a gente chama de lua-de-mel. Depois é fatal. Quem é dependente químico, se não parar, morre. E se não morrer de overdose, suicídio ou câncer no fígado, morre em acidente de carro ou coisa assim.

 

ISTO É - O sr. já foi chamado de profeta da sua geração. Como reage a isso?

Renato Russo - Não me vejo como profeta ou Messias nem nada. Sou um cantor de rock, um músico, um artista. Eles te colocam lá em cima para depois te derrubar. É o que estão fazendo agora com o Betinho. Primeiro Betinho é maravilhoso. Aí, acontece qualquer coisa e Betinho não é mais maravilhoso.

 

ISTOÉ - O sr. acha que o Brasil tem jeito?

Renato Russo - Não tenho que responder isso. Trabalho, faço minhas coisas. Se eu não acreditasse em nada, não estava aqui ensaiando com minha banda, não teria vontade de ver meu filho quando vou a Brasília. Se não acreditasse em nada, dava um, tiro na cabeça como o Kurt Cobain.

 

Entrevista enviada por Mário Luiz Simici

 

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